A rua
Foto: Ana Maria Oliveira |
Outrora terra
batida cercada por olivais e searas
Foi projeto de aconchego
a famílias de aldeias
Onde a míngua era
o pão nosso de cada dia e as carícias raras
Esperançados nas
promessas da grande cidade
Investiram os
últimos tostões e apostaram no desconhecido
Este é o caminho
daquele que rompe com a miséria impondo a vontade
A classe operária no
seu ritual robótico vingou
O pesadelo da fome
ao lado passou contornando as censuras
Apesar de um
governo débil e medíocre que maltrata
Finalmente um teto
sobreveio ultrapassando agruras
A criançada para a
rua se alvoraçou e juntou
Traquinices e
risotas corridas e aventuras
Foi tempo de
construção
Agora a rua tem no
chão tijolos de betão
Irregular aos
altos e baixos sem planeamento
Ao sabor de
tempestades e do vento
Da sorte florida
impregnada de determinação
Os construtores da
rua de velhice faleceram
Os seus filhos
outras vidas tiveram
Vícios sonhos
desastres medos pandemias
Já nada se
constrói e tudo se consome
Tudo se vende por
entre desgostos e arrelias
A geração dos
ansiosos e derrotados
Aguardam a
rendição à morte incoerente
Esperam que a rua
se abra ao mundo de espaços inundados
Que outras
crianças ocupem nela o espaço dos sonhos
Que transbordem
coragem para olhar em frente
A rua é uma bolha de
aninho
Perante o
crescente fanatismo
No meio da azáfama
das metamorfoses
Abrigo dos
inocentes no centro do cataclismo
Apoio para os
sensatos perante o trovejar das armas em combate
Refúgio para as
mulheres mal-amadas
Castelo inexorável
para humanos maltratados em abate
Talvez os anjos
ainda circulem por esta rua
Onde a paz apesar
das ervas daninhas prevalece
Há nódoas de
deserto e silêncio nesta passagem crua
Pegadas de
angústias marcas de abandono
Sob os fios de
água que nela escorrem
Em dias de
tempestade inquietos
Vibra um lajedo forte
eterno e seguro
Pilares invisíveis
perante terramotos incertos
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