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Setembro

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A calma de setembro levantou-se na penumbra do amanhecer Empurrou os lençóis para o fundo da cama  Tentou convencer-se que os seus dias acontecem Sem qualquer ruído nem perspetiva negativa Fazem sentido e cabimento na programação dos sonhos  E o minguar das roseiras tem gravidade relativa   Que temperaturas escaldantes são estas Que diminuem as pétalas das rosas Secam os seus caules e folhas As raízes agoniam sob o solo em brasa que amarga E nós que sufocamos por dentro gotejando suor Acompanhando os gemidos desta flora em sobrecarga   A euforia de setembro afasta os gestos pesarosos Instalando a energia do mar inconformado Que acolhe os guerreiros e os náufragos como barco Que flutua na efemeridade das cintilações poluídas  Perante radiações criminosas que derrubam os seres E impedem o orgasmo adiado pelas pontes destruídas   As quatro estações transformam-se Em sei...

Despedida

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A despedida é manhosa traiçoeira Cria fios de parasitas no coração de quem fica E nódoas negras para quem vai Mas a obscuridade da rutura pelos lençóis enfadonhos Pode transformar-se em luz que ilumina Em criatividade para quem materializa os sonhos    O rompimento pode florescer em sorrisos Pode ser água que brota da fonte fresca Para quem há muito morria no deserto E transforma a sede num ambicionado caudal que refresca   A despedida é imperativa no abraço ao mundo Na edificação da criatura prisioneira de delírios Mas como afirmar um adeus que definha Se as memórias persistem em perpetuidade E continuam a moldar as emoções que nos humanizam A finalizar ciclos e a entrar noutros em continuidade   Não há despedidas Há o mar que nos envolve sem subterfúgios E nos reinicia para o novo dia Encontramo-nos todos no mesmo plano de conforto No atalho entre artérias e o espaço sideral ...

Os malabarismos da aranha

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  Foto: Ana Maria Oliveira   O aranhiço escutou ciumento e invejoso Os sons harmoniosos da paisagem pura Na dissertação da fluidez das nuvens brancas E cogitou numa forma de transformar o dia em negrura   A viúva-negra peçonhenta e reativa foi absorver veneno Às minas encastradas em mundos paralelos Empreendendo a sua mezinha de horror Possuindo artifício possante que afeta as vítimas Provocando prazerosa e resoluta dor intensa espasmos e suor   O aracnídeo arquiteta armadilhas É mestra do canibalismo sem culpa em oratório Desafia os indivíduos da mesma espécie Com disputas duvidosas de território   A aranha é intolerante a invasores Não gosta que lhe conquistem o espaço Defende a teia em tom agressivo Passeando-se dissimulada por outros limites Combatendo a vítima em silêncio destrutivo   Vai aranha para o teu ninho Não confundas a tua teia feita espinho Com a limpidez das águas que escorrem da montanha ...

Contracorrente

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  Foto: Ana Maria Oliveira A náusea admoestou o corpo  Quis ser senhora das vias de passagem Das decomposições ácidas agrestes Originadas pelo fôlego prisioneiro dos vermes Que estrafegam os sonhos dos pedestres   Agora as vias permanecem obstruídas Pelas pedras como junções De estalactites e estalagmites Que com o tormento gozam descaradas Esperando o grito solto da contracorrente Em arquiteturas desanimadas   Nas protuberâncias dos aflitos O sujeito da contenda assiste incapacitado O mel e o fel envolvem-se em concomitância Na trama dentro do seu próprio ser limitado   Como acalmar o estado de padecimento Provocador de nuances obstruções Avalanches mordaças solidão E anseio de retornar à invisibilidade Como expulsar tamanha batalha Das entranhas sem lhes rasgar a vitalidade   Nódulos germinam na profundidade dos tecidos Rodeados de veias que palpitam esforço  O movimento continuo sem precisão An...

A fome

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A fome olhou através da velha janela Contemplou os pássaros que se pavoneavam Agitados e felizes debicando sobre a terra acastanhada Repleta de um emaranhado de árvores inférteis Onde outrora olivais viçosos tinham a sua morada   A fome por momentos ficou absorta Abriu então a boca e devorou a primeira refeição do dia Por entre ervas selvagens comestíveis Num espaço caótico de beldroegas e urtigas Fitando o tudo e o nada num amontoado de perecíveis     Levanta-se cedo a fome Umas vezes agoniada outras vezes entontecida Outras invadida por enxaqueca desmesurada Que a faz vomitar palavras de alento Para entidade superior ou energia sem nome Que sem cair a faça levantar do leito   A aceleração dos gestos imperativos A ginástica obrigatória de agachamentos Impedem uma refeição mais cheia Ela consome em modo automático Cinco da tarde e o almoço será agora  Mas a fome não dige...

Jejum

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    Foto: Ana Maria Oliveira A privação abraça-me na delicadeza das sonoridades Que arrebatam para uma estratosfera de sonhos É companheira de estrada e da subtileza dolorida Provocada pelo entupimento dos canais De acesso a outros patamares deslizantes Por colinas em desequilíbrio dividida   Chocalham os ossos dos defuntos revoltados Pela esquizofrenia dos aliados do caos em velocidade Saltando furiosamente de palco em palco Batendo os pés sobre andaimes em  instabilidade   A complexidade das arquiteturas em carne Escondem autoestradas de trocas atómicas Negociando a falência dos órgãos delineadores De arranha-céus à beira da fragmentação pela força amoral Dos elementos em envolvimentos frenéticos castradores   Enquanto a compatibilidade das almas espera O alinhamento na direção do alvo furtivo em  fluxibili dade O cruzamento gera oportunidades quânticas De criação de galáxias multicolores na imprevisibili...

Luzes néon

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  Foto: Ana Maria Oliveira     Um ruído ensurdecedor metralha os ouvidos Seres díspares deambulam hipnotizados pelo tesouro Diante de jogos exploradores de fantasias Que enriquecem uma indústria ávida de ouro   Crianças gritam de entusiasmo perante a oferta deliciosa  São outros sonhos outros quereres E um choro convulsivo assombrado pela deceção Prolonga o tempo de sofrimento Permanece à entrada do recinto de euforias De baloiços rotativos de fúria e loucura Um colchão onde saltos e saltos Criam sensações de controlo e voo em doçura   A mãe arrasta o rapazinho pequeno pelo braço Para fora daquele lugar estonteante de diversão Provocador de epilepsia em aguda carência Progenitora e filho estão tristes frustrados infelizes E desaparecem rapidamente por entre a multidão    Um pai incentiva o filho a atirar-se sobre a caixa das bolas A subir aos escorregas e adquirir a velocidade dos sonhos  O pai ...