Mensagens

Voto de silêncio

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Hoje é dia de voto de silêncio  Porque não há palavras que solucionem as desavenças De criaturas extraviadas das naturais e equilibradas Serenas e empáticas frequências   O redil dos homens tem vários recantos Criados nos cérebros em constante vigília Onde se alojam e crescem os medos perpétuos   Dos desconfiados de abraços subtis ancorados   Nos venenos que destroem aos poucos os espíritos ingénuos    Hoje é dia de voto de silêncio  Em terrenos minados de manipulação Porque não devo imiscuir-me Em jogos e subterfúgios que acalentam pressão    Há uma mina invisível de parasitas à solta  Procurando avidamente a oportunidade de contágio  Sinto-os e deteto-os mesmo nos disfarces mais camaleónicos  Estou no palco do país das maravilhas  Com música apelativa para os meus ouvidos em conciliação Mas a orquestra range em lugar de se afinar Pois há...

Mensagem de Outono

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  Foto: Ana Maria Oliveira  Os corvos regressam anunciando a mudança  Ainda é noite e o sol prestes a clarear a Terra Sobre as nuvens que ofuscam a ténue claridade Quando a mensagem envolve a negrura dos voadores Vigilantes da alvorada anunciando a liberdade   Observo-os num esgar rápido E sei que recebo a diretriz da caminhada  Apesar dos emissários serem disfarçantes no ar Sábios na contemplação do tempo que se emaranha Qual novelo difícil de desembaraçar    Cinco corvos pousados na torre A mesma que serve de antena da transmissão E comunicação entre homens de frequência demente  Estão em silêncio estas criaturas aladas Como se a simples presença fosse suficiente    Há um corvo que voa e se afasta do agregado A vontade imprevisível traz novidades captando novos ângulos Quebrando a monotonia estática e estéril Da estagnação dos meus passos que deambulam sonâmbulos   Agora são quatro criat...

Cânticos

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Da profundidade da alma humana surgem cânticos De união com a Terra deslizando como veículo de alento A palpitar em todas as latitudes por veios labirínticos   A sonoridade da alma inventa-se na força Para subsistir em terrenos inférteis  Reflete-se na dinâmica do envolvente em pura aliança Como frequência em sopro nos mecanismos do espírito Envolve-se na diferença dos seres cingindo a semelhança    Esta melodia vibra na garganta dos destemidos No grito em tormento inaudível dos resignados Na dúvida inquieta e sombria dos famintos Na incongruência da lei dos homens encarcerados   É um cântico diário pleno de significado Somos guerreiros a respirar no centro de conflitos bravios Temos o céu como almofada de aconchego E o sol como amigo que nos sustém os dias sombrios   Esta ária acompanha os rebeldes Envolve-se com os criadores de sonhos Com os visionários que captam outras ...

Trilho

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  Foto: Ana Maria Oliveira Acompanho um trilho a direito onde reluzem os carris De margens desafogadas onde os humanos improvisam negociatas Na genética das gerações que abraçam as árvores   Paradas no tempo banal confiscando ilusões aos deuses Na imensidão da planície acolhedora de projetos gravados Pela misteriosa profundidade sideral Onde outrora germinavam arquiteturas em forma de fardos   E o trem que vem de longe e traz devaneios Proezas audácias depressões E ruturas imperativas com as algemas Das emoções desenfreadas e subtis manipulações    É colossal o temor que me devasta na miragem Destas carruagens de metal quais gaiolas de pássaros Acomodando a revolta o desânimo e as fantasias De quem tudo experienciou na batalha da vida Pois estes carris levam-me até ao sonho concretizado Mas também à obscureza da lei ditatorial em aberta ferida     A crueza com que me cubro para ultrapassar obstáculos  A ...

Setembro

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A calma de setembro levantou-se na penumbra do amanhecer Empurrou os lençóis para o fundo da cama  Tentou convencer-se que os seus dias acontecem Sem qualquer ruído nem perspetiva negativa Fazem sentido e cabimento na programação dos sonhos  E o minguar das roseiras tem gravidade relativa   Que temperaturas escaldantes são estas Que diminuem as pétalas das rosas Secam os seus caules e folhas As raízes agoniam sob o solo em brasa que amarga E nós que sufocamos por dentro gotejando suor Acompanhando os gemidos desta flora em sobrecarga   A euforia de setembro afasta os gestos pesarosos Instalando a energia do mar inconformado Que acolhe os guerreiros e os náufragos como barco Que flutua na efemeridade das cintilações poluídas  Perante radiações criminosas que derrubam os seres E impedem o orgasmo adiado pelas pontes destruídas   As quatro estações transformam-se Em sei...

Despedida

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A despedida é manhosa traiçoeira Cria fios de parasitas no coração de quem fica E nódoas negras para quem vai Mas a obscuridade da rutura pelos lençóis enfadonhos Pode transformar-se em luz que ilumina Em criatividade para quem materializa os sonhos    O rompimento pode florescer em sorrisos Pode ser água que brota da fonte fresca Para quem há muito morria no deserto E transforma a sede num ambicionado caudal que refresca   A despedida é imperativa no abraço ao mundo Na edificação da criatura prisioneira de delírios Mas como afirmar um adeus que definha Se as memórias persistem em perpetuidade E continuam a moldar as emoções que nos humanizam A finalizar ciclos e a entrar noutros em continuidade   Não há despedidas Há o mar que nos envolve sem subterfúgios E nos reinicia para o novo dia Encontramo-nos todos no mesmo plano de conforto No atalho entre artérias e o espaço sideral ...

Os malabarismos da aranha

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  Foto: Ana Maria Oliveira   O aranhiço escutou ciumento e invejoso Os sons harmoniosos da paisagem pura Na dissertação da fluidez das nuvens brancas E cogitou numa forma de transformar o dia em negrura   A viúva-negra peçonhenta e reativa foi absorver veneno Às minas encastradas em mundos paralelos Empreendendo a sua mezinha de horror Possuindo artifício possante que afeta as vítimas Provocando prazerosa e resoluta dor intensa espasmos e suor   O aracnídeo arquiteta armadilhas É mestra do canibalismo sem culpa em oratório Desafia os indivíduos da mesma espécie Com disputas duvidosas de território   A aranha é intolerante a invasores Não gosta que lhe conquistem o espaço Defende a teia em tom agressivo Passeando-se dissimulada por outros limites Combatendo a vítima em silêncio destrutivo   Vai aranha para o teu ninho Não confundas a tua teia feita espinho Com a limpidez das águas que escorrem da montanha ...