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Murcham as rosas

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Ramos de espinhos secam ao sol sem vida Como se braços fossem cortados retirando-lhes o alimento Porque o calor molda outro mundo que derrotado enlouquece Enquanto raízes lutam por água esquecendo o inverno agitado E a canícula mata outros seres e as folhas amarelece   A gata vadia atenta no telhado do galinheiro Observa o trajeto dos voadores serenando no poiso Castelo eterno da galinha princesa Pois há um espaço permissivamente partilhado Com as rolas, os pombos e os melros na natureza   A osga de barriga cheia esconde-se no aglomerado caótico Na desarrumação dos elementos que permanecem suspensos Dependentes de uma vontade adiada Enquanto o astro rei se ergue e esconde da Terra soberana Indiferente aos sonhos programados Tatuados algures no interior da alma humana   Murcham as rosas nesta atmosfera de mudanças Onde a cor da luz  se modificou E a quentura outrora aconchegante é já si...

Hospício mundial

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  Foto: Ana Maria Oliveira Não sabemos o que fazer com os choros e os gritos Afundamo-nos impotentes na pobreza emocional E cometem-se transgressões no deslize da incoerência O descontrolo prolifera a cada corrida de estrada Enfraquecidos e pulverizados pelas borrascas da existência   Somos assolados pela penúria do desassossego Pelo alvoroço sugador de energia sem freio das ilusões Pela perturbação que nos desintegra a alma Pelo dispêndio cego das imprevistas emoções   Agora temos computadores que comunicam connosco Adivinham os desejos escondidos de forma charmosa Vasculham as fragilidades mais recônditas Apresentam-nos a carta de gastronomia mais deleitosa   Dialogamos com máquinas e em segundos Há sempre respostas prontas que em regalo nos confortam Mas de quantas ratoeiras invisíveis temos de fugir a correr Quantos caminhos ainda temos que ultrapassar Com quantas prisões ainda precisamos de romper

Sinfonia do distanciamento

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A obsessão traja lantejoulas de festas artificiais Provocando a fragilidade para que se erga das ruínas da fornalha A privação oculta mistérios de alucinações periclitantes Induzindo a premissa que corta o raciocínio em mortalha   Há sempre um elemento culpado pelo desamparo Mas os sonhos arquitetados na falência do real Provocam a loucura da camuflada desilusão Na ausência imperturbável do vendedor de quimeras Arrasando a memória dos dias paralisados pela procrastinação     Anuncia-se o alagamento dos cérebros escaldados pelo sol Espera-se a destruidora avalanche que desintegra civilizações Sem ética de suporte a um bem maior Aguarda-se a invasão dos químicos moldando criaturas Na falta de autenticação das sementes Que perfazem quadros vazios sem molduras     Percorre-se um trilho contaminado na pluralidade da invenção Asas são queimadas pelo fogo querendo planar Mas desencadeiam a...

Claustrofobia

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A claustrofobia assolou sem avisar Integralmente os medos em conflito Com a ressonância magnética Perante o tubo que veda a mirada Para paisagens mais movimentadas Quando o capacete veio em dança surpresa Enroscar-se sem permissão na cabeça Imposta por uma tecnologia fria que o desapego invoca Apenas acessório inevitável como máscara computorizada Que desleixa estados emocionais e sufoca   O gatilho da memória sintonizou a cama de hospital Recuou uma década e visualizou inconsciente A imobilidade forçada de duas longas semanas Onde os sedativos e paliativos se mesclaram em sintonia Confusos e pacientes aguardando A inevitabilidade cortante da cirurgia   A claustrofobia emergiu da reminiscência E imediatamente o sinal de alarme soou pioneiro no coração Alastrando o estado de ansiedade a cada batimento O capacete assemelha-se a um castigo de imobilização Uma mascarilha que tolda o discerniment...

Triângulo de carências

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                                                                  Foto: Ana Maria Oliveira   A gazela salta alegremente na passarela dos aplausos No escultural perfecionista alisando os altos e baixos Cortando tudo o que não encaixa na vaidade balofa Da beleza alucinada da mesmice da servidão Onde tudo se alinha no galgar de elegância Por entre aplausos de verdugos ávidos de adorações básicas Perfeito é o conceito a cintilar no espelho partido do narcisismo Onde o antílope sabe ser gracioso e vencedor de maratonas estéticas   O coelho cansado bem tenta colorir o céu Mas a desordem e a fragilidade destroem o floreado Que brota em seu redor facilmente manipulável E dentro da floresta negra tenta evitar o assalto Cambaleando em ziguezague desamparado inadaptável Inocentemente sonha alca...

Memórias do Alentejo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   As tarrafas ainda subsistem em caixa frágil No emaranhado das redes comprimidas pela linha de chumbos Aguardando a homenagem a rituais de sobrevivência Esperando o apontar da objetiva criadora de sonhos em alento Provocando a fotografia liberta mesmo em paragem incerta Do lançar sobre as águas mais promissor recolhendo alimento Construindo palcos para cinematografia eufórica Descobrindo enlevos de postura mais serena em memorandos Amando e admirando a feição mais insurreta Por entre esconderijos dispersos pela raia Germinadora de paixões ocultas e contrabandos   Os peixes desapareceram da prisão dos fios Permanecem agora nas lembranças remotas do Alentejo Os tresmalhos perderam-se nas cirroses ardentes Contaminadas pelos charcos que secaram algures Onde as cigarras encantadas rebentam em chiadeiras estridentes Perante o calor que aperta no estio em acasalamento cortante E os cágados refugiaram-se nas sombr...

O sufoco do casulo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Sacudo para longe a asfixia dos invólucros Perante a estranheza das roupagens Alivio a pressão do aperto dos tecidos alienígenas Na transpiração revoltada contra as fibras artificiais Provocando o afogamento pela plastificação das inconsciências   O desconforto acutilante do casulo escuro Erguido pelas amarras dos casacos de lama Cria avidez pelo corte inevitável das vestimentas Ambicionando a respiração da liberdade transitória da nudez Envolta em alegria meditativa da terra sob os pés Rasgando texturas que nos petrificam em estátuas Aliadas à ditadura desenfreada da estética compulsiva das esculturas Gerando a fome acelerada da moda em desuso vertiginoso Instigando a destruição pela alarvidade dos psicopatas   E a nudez perene a registar as rotas do desocultar dos mistérios A revelar os meandros das células a latejar O desvendamento do bater do coração As veias e artérias em comunicação a palpit...