A fome
Foto: Ana Maria Oliveira A fome olhou através da velha janela Contemplou os pássaros que se pavoneavam Agitados e felizes debicando sobre a terra acastanhada Repleta de um emaranhado de árvores inférteis Onde outrora olivais viçosos tinham a sua morada A fome por momentos ficou absorta Abriu então a boca e devorou a primeira refeição do dia Por entre ervas selvagens comestíveis Num espaço caótico de beldroegas e urtigas Fitando o tudo e o nada num amontoado de perecíveis Levanta-se cedo a fome Umas vezes agoniada outras vezes entontecida Outras invadida por enxaqueca desmesurada Que a faz vomitar palavras de alento Para entidade superior ou energia sem nome Que sem cair a faça levantar do leito A aceleração dos gestos imperativos A ginástica obrigatória de agachamentos Impedem uma refeição mais cheia Ela consome em modo automático Cinco da tarde e o almoço será agora Mas a fome não dige...