Imperfeições
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| Foto: Ana Maria Oliveira |
Gosto
de imperfeições pele enrugada dentes assimétricos
A
perfeição transmite-me frieza artifício falsidade correção
Há
um encontro plácido no pormenor único que identifica um ser
Uma
alma em frequência de leveza paz e aceitação
Um
grupo de velhos conversam entre si sem um sorriso
Apenas
contam os dias de frio em gesticulações monótonas
Pela
carícia ténue de calor que os gratifica pelo meio dia
Que
delícia de cenário lembrando ancestrais
Volto
lá à mesma hora porque sei que os vou encontrar
Com
eles esqueço cantorias desafinadas
Disfarçadas
de traições e catanadas
Um
casal aparece carrancudo com enfado visível
Como
se fizessem da vida uma disputa incontornável
E
eu esmiolando a velha empada de galinha
Que
teima em não entrar na garganta de forma insuportável
Degluto
com dificuldade assolando-me um enjoo
De
ruídos de galináceos que cacarejam acusatórios
Lançando
a vista e a crista para terrenos alheios
Esperançados
em esgaravatar no terreno virgem
Tentando
encontrar rastejantes à altura da sua gula de anseios
Duas
mulheres conversam banalidades do dia doméstico
Enquanto
o caldo da sopa abafa os ruídos da fome
E
um velho cliente galanteia a empregada de balcão
Faço
um sorriso amarelo à avestruz graciosa vigilante
No
seu assédio nauseabundo do alto da mirada provisória
Provoca-me
a náusea que me persegue na lembrança do cacarejo
Imbecil de bico duro picando entre montes de terra
Indo
fundo na captação dos vermes que hasteia em vitória
Por estes últimos dias do ano de dois mil e vinte e cinco
Só
o sol acariciando o verde das árvores me seduz
E
para a pernalta de cabeça oca fecho o trinco
Observo
aquele grupo de anciãos e sereno o pensamento
Há
uma sabedoria calma e purificadora que me toca e se capta no ar
Me
transmite tranquilidade mantendo-me de pé com afinco

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