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Tempo lento

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  Foto; Ana Maria Oliveira Criei asco aos discursos pomposos Que capto de gente perdida amargurada Estonteantemente procurando novas vítimas Repetindo ciclos de toques contaminados Por paranoias medos narcisismos e débeis argamassas Respirando impacientes pelos pulmões alheios Que projetam enredos de distração de massas   Cada vez mais confortável na minha pele E no meu silêncio que gera melodias perenes De campos virgens onde as aves nidificam Traçando mapas imaginários sem artimanhas De mantras que criam em uníssono a vida   E executam estrondos sobre os cumes das montanhas   O que me aconchegava desapareceu nas redes De tráfego intenso na iminência da tragédia Na correria dos autómatos e dos escravos de falso charme Sozinha dito as orientações de bailados e meditações Que me facilitam o afastamento de silvados que me rasgam a carne   E neste balançar do corpo apenas sorrio ao pardal Que faz ninho por cima da minha...

Pequeno laço

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Há um pequeno laço que me toca suavemente E me transpõe para lá deste ambiente De silêncios e murmúrios Então movimento-me entre sentimentos Ultrapasso paredes emocionais em pântano intenso E permaneço por frações de segundo Em janelas iluminadas da memória onde por vezes descanso   Estou embrenhada em mim e na viagem que se apresenta solitária  Tenho por companhia as minhas mãos Que constroem abraços despertos pela brisa dos teus olhos Permaneces lá no frenesim de vida da minha lembrança de amor E sei que em milagre poderíamos voltar ao toque dos amantes Mas o desejo escondeu-se para lá do horizonte E a estrada está cortada interrompida pela tempestade do temor  

Corpo insubmisso

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                                                               Foto: Ana Maria Oliveira   Alucinam-me os ruídos das estradas homicidas Os sussurros dos humanos infelizes Preocupados com o andamento da vida em decaída Sobre pedaços decompostos denunciando cicatrizes    Desagradam-me os ginásios onde se moldam corpos Como se edifica uma escultura em declínio adiado Onde gotas alheias de suor se misturam Entre odores artificiais de gesto fabricado   Incomodam-me As transpirações as cinzas  As nuvens de areia Os rodopios de pó  A indiferença como gelo afiado Que se espeta no ventre E nos anuncia a morte das células  Revoltadas pela fraqueza da alma Pelos limites do corpo  Pelas necessidades escondidas Pela explosão do choque  Pelos orgasmos per...

Galgando fissuras

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Contrabalançando a zanga dos elementos que nos devoram Assisto à impiedosa agressão dos ventos ciclónicos Como se a natureza estivesse em revolta contra os atos humanos E chuvas a meio da noite erguem armadilhas para os viventes Como se nos alertasse para a incapacidade em que nos banhamos   Recusamo-nos a despertar e viver em harmonia com a Terra E este ser de acolhimento responde com revolta no ar Que nos fazem retroceder nos argumentos desastrosos Que nos levam a explorar desalmadamente e não a desfrutar   Continua a existir um rio suspenso de revolta Que alaga os campos de cultivo e os lares Corta estradas abre fissuras provoca derrocadas Destrói os bens por saldar dos homens confusos amedrontados Desesperados perante tamanho flagelo que denominamos de azares

A tela

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  Foto: Ana Maria Oliveira Contemplo embevecida a tela que mergulhou Certamente num golpe de transe fantasmagórico E permanece no mundo virtual exigindo visibilidade Constato atónita que desapareceu desta frequência Que materialmente retalha e distende tudo sem piedade   Tem laivos de flores alaranjadas brancas amarelas É um mar agitado que as detém ou um pântano traiçoeiro Faminto de iguarias e odores majestosos Adocicados pela premência de nascer em busca do sol Sustêm-nas um solo movediço de cor imprecisa As folhas erguem-se por segundos pedindo luz e aterram Na dimensão do indefinível em respiração indecisa   Procuro incessante o quadro que escolheu o oculto Adquiriu vida própria e esbateu-se com outras formas e tintas Outros materiais vindos de longe sobrevoaram-na Em rodopio como tempestade de areia E os seus grãos desmaiaram sobre os ribeiros de matizes Que deslizaram ao sabor da gravidade E do frenesim dos pincéis que esqu...

Idolatria

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    Foto: Ana Maria Oliveira   A autonomia dançou a roda e desfez-se em transcendência horizontal Imitou sedada o vizinho do lado invejando os seus domínios Em desterro obscuro de energia submissa Numa ínfima fração de segundo em que se idealizou ser rainha Desfaleceu na velocidade vertiginosa da cobiça   Cintilou de poder ilusório e foi feliz agitando os tentáculos Das possibilidades da vontade autoimposta sobre abismos A pobre nem se deu conta de que a identidade resvala Para a desintegração das partículas sem lugar a romantismos   Para que esgoto escorreram os valores e as escolhas Evaporando-se na necessidade de idolatria de modelos Transformados em ovelhas que seguem o lobo no souto Ignorando que não há seres superiores Surge a frivolidade do propósito de transformação no outro   Transformar a paranoia em estrelas sustentáveis é processo ingrato  Porque este labirinto que nos envolve amordaça-nos em violento...

Ambição alucinada

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    Foto: Ana Maria Oliveira   Criaturas encadeadas pelos holofotes denunciam figuras alienadas Pelo trejeito inseguro do sistema educacional falido sem orientação E a violação dos direitos humanos é norma na cabeça de répteis Que se decompõem na imperícia e modo de assimilação   Farpas invisíveis assomam à superfície da pele O improviso espraia-se na decadência dos artifícios em suspensa teia E o provisório alarga-se na cronologia cíclica da desordem Que se desdobra em espantalho de uma assombrada plateia   A besta que tudo quer ser e tudo quer ter Veste-se de imperador da nova moralidade E quando o espelho quebrado lhe diz Que é o mais possante do mundo entre casebres As sanguessugas espreitam a travessia dos famintos E atracam nos corpos como parasitas alegres   A ganância de ter acumula materiais corrosivos Manipulando peões indefesos em deslizamento agitado Desenhando a guerra económica que corta o sustento ...

Sabedoria infértil

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  Foto: Ana Maria Oliveira     A transmissão do saber estático faz-me saltar para outra dimensão Enfada-me a injeção de informação contaminada por opiniões E nem sempre engulo o que me colocam no prato Criticando a história rebelo-me contra a autoridade cega O tédio e insularidade anulam a emoção necessária ao entusiasmo Mas num impulso da vontade brandida Transformo o fastio em vibração diligente e fecunda Recusando-me a cortar o cordão umbilical da vida aguerrida   Germina um fungo maléfico na patologia coletiva Doenças germinativas contagiosas de neuras impostas Nos académicos em declínio e nos políticos tragados pela negra ambição E o chá quente de gengibre e mel emerge paliativo Para os fracassos e empurrões que fazem peso sobre as minhas costas   Entro em estado de hibernação neste envolvente ardiloso Salto o tempo engano-o e adormeço algures Na caverna mais alta da montanha Salto o vazio e ergo sustentáculos sem t...

Cinematografia do desencanto

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Nasce o sol em laivos de laranja e rosa Quando a minha alma navega ainda na tua frequência Distancio-me do ruído do trânsito de gente apressada Que obedece ao transe coletivo programado Nos chifres de uma cavalgadura exaltada que dá pelo nome De receio antecipado das catástrofes iminentes Provocadora de ilusões aceleradoras de neuropatias invisíveis   Baralho-me com o gentio e deixo-me levar por premissas erradas Necessito delas para me sentir em movimento enquanto escolho Proteger-me do caótico das sociedades humanas Há um lado de mim que permanece desperto às teias do exterior Há um outro inabalável mapeado nas sinapses que me sustêm Que me envolvem meigamente com a flauta dos Andes E mergulho novamente na profundidade do teu olhar   Afasto-me da ignorância da aprovação social Não capto a trama dos Influencers apenas mãos geladas e hirtas Narcisistas abrem-me os braços sugando afetos Abrilhantados...

Madrugada de domingo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Contemplo o céu cinzento escuro do alvor Com laivos ténues de um azul tímido Lá fora onde o musgo teimosamente pinta o chão Gotas de água como cristais beijam os galhos E deixo-me alagar pela chuva suave que me conforta então   Nada se agita neste mistério de renascimento do rei Sol Os ramos das árvores do quintal permanecem estáticos Como se estivéssemos dentro de uma campânula de vidro Que nos protege contra tempestades em lugares monásticos   O silêncio transporta com ele uma palavra de quietude Vontade de respirar nesta tranquilidade alheada Em que nada mudou exceto os rebentos vermelhos da camélia Que timidamente desabrocharam lutando pelo seu espaço contíguo À roseira branca que permanece intacta na sua elegância velada   E outras cores vão surgindo na transição da noite para o dia Um melro esvoaça por cima dos telhados em cenário encoberto As gaivotas agitam-se bem lá no alto invadindo...

Asas inquietas

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  Foto: Ana Maria Oliveira   O bailado de voadores espera-me algures na interceção espaço tempo O parecer consciente aquieta-se adejando leve como a passarada Num trono artificial oscilante que nunca consegue granjear A real essência do planar e o sentir da criatura alada     Este impulso que me atira para a exploração dos pensamentos Cativa-me na fração ínfima da duração de uma faísca Em viagem virtual trespasso muralhas turvas e instalo-me No território que anima e se funde para que a vida persista   Pois ao mergulhar fundo na existência E apesar da agitação e apelos de outras fainas e inventos Faço o voo em direção ao portal da liberdade em resistência E o Tejo serpenteando testemunha a tragédia e os renascimentos   Anima-me o som das cigarras que cantam nos silvados Acalmam-me os lagartos que se estendem ao sol sobre as pedras Faço pacto com as corujas que vigiam a postura dos humanos Desfaço-me contra as falésias...