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Emboscada

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A euforia germina na superficialidade dos encontros Nos cumes desmaiados onde se inventam florescências Em oscilações dos gelos pulverizadas pelos compromissos Da transitoriedade desenhada em carantonhas submersas   Corridas pedestres provocam tremores Em escadarias abarrotadas de fungos Que tatuam oráculos indecisos e mórbidos Sobre a cabeça dos répteis que se aprisionam Em espaços cerrados sobre si próprios   Há um cordão quebradiço de braços e mãos A desparasitar os insetos futuros comedores de almas No rodopio delirante dos vivos alienados Prestes a despedaçar os fios que prendem As moléculas psicopatas das desavenças Gerando explosões criadoras de cavernas intemporais E implosões sugadoras dos instantes em deleite Na serpente ardilosa do tempo desbravadora de canais   As pegadas anunciam a catástrofe das intempéries No rasto penetrante dos gigantes com a mãe mistério A provocar nevoe...

Alucinações e delírios

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  Foto: Ana Maria Oliveira Poeiras oriundas do Sul invadem geografias escaldantes Que animadamente derretem e contaminam corpos Fulminam ansiosos cérebros psicóticos  Em cárceres minados pelas progenitoras que devoram os filhos Por instantes de alucinações que as coroam Nos reinos desaparecidos dos intestinos dos bovinos   Os humanos afundam-se nas ratoeiras da mente Gerando construções fictícias como quem está ávido De concretizar as visões narcísicas dos projetistas em queda Na arquitetura inconstante das emoções em festejo impávido   Delírios proliferam nesta sociedade de masoquistas Prolongando relações abusivas de sádicos em lugares escondidos Alucinações incontroláveis ignoram o significado de empatia Homicidas à solta por entre o rebanho de ignorantes adormecidos   Apago as visões destas criaturas esfaimadas Canibais exploradores de campos dementes Pela esquizofrenia não assistida São terrenos mafiosos de odores p...

Avestruzes

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  Foto: Ana Maria Oliveira   As avestruzes ergueram esforços Para manterem os pescoços na verticalidade De pernas altas ar aprumado conjeturam Uma forma de afastar a cegonha Que só quer fazer ninho e manter a prole Longe de viroses acidentes e peçonha   Bicos fortes e ar de quem conhece o terreno Não permitem a invasão de outra passarada E bicam aqui e ali empurrando a pobre cegonha Para fora da fortaleza erguida pelas pernaltas Destruindo a teoria dos sonhadores impotentes De que o convívio é possível Mesmo de físico dissemelhante e fuças diferentes   As avestruzes aumentaram o círculo da xenofobia  Ou fuga da vítima ou morte da pobre criatura Que também tinha direito à vida Então posturas de desdém soltam a fera Que nem todos conseguem dominar Entre sons jocosos e gritos de guerra   A cegonha revoltou-se e o que outrora era silêncio Passou a gemidos de dor O gemido passou ao erguer do peito suportando a...

Libertação

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Cintila um campo eletromagnético na película Que outrora se tornou real na flutuação das carências  Simbioses floresceram sincopadamente   Pelos devaneios heurísticos quais catraios num bailado Explorando a química dos corpos inquietos Apressados no estonteamento do labirinto Alargando vias rápidas em desfiladeiros vertiginosos Como arriscando a lucidez num abraço faminto   Permanece oculta uma câmara inviolável Protegendo gestos de enleios fluidos que escorrem Entre gargantas sequiosas de um beijo Florescendo na nudez dos espelhos onde anseios morrem   Agora depois de numerosas luas passarem Há um confronto necessário que impele com novo vigor A criar andamentos firmes sobre a selva das emoções  O mar ainda espera os pés descalços baloiçando em límpido festejo Com a espuma das ondas a confortar a pele sequiosa O sol afaga os poros na vibração sedenta do desejo   Os dedos p...

Sem premência

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  Foto: Ana Maria Oliveira Depois da enxurrada perdida por entre as artérias Do corpo que me sustém sobre a aridez das falas humanas Há um sol em vigor que me invade as veias A palpitarem por vida sem receios nem alarme As hemorragias permanecem apenas numa ténue janela da memória Que me assalta de quando em vez lembrando a fragilidade da carne   Dir-se-ia que há um íman que me prende a este chão Qual criança inventiva ao conjeturar quebradiços castelos Perceciono então que meu campo de visão permanece o mesmo Sendo palco de sonhos e lutas assombradas por pesadelos   Como o horror pode estar por detrás de um sorriso Como a vergonha se esconde envolvida Nos tentáculos do silêncio esperando o alívio na morte Quando o sangue pisado se faz tatuagem da descrença Assola-me a incongruência e a cobardia dos homens Perante episódios de insanidade e manipulação psicológica Qual intrusos que entram sem pedir na minha lembrança   Bonecas...

Enfrentar o caos

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  Pintura de: Ana Maria Oliveira Transito temporariamente em terrenos minados Só o caótico relampeja por entre sinapses De velocidades cegas esbanjando visões semelhantes a calvários Miscigenadas de cores que guerreiam pelo espaço Vibrando inseguras adivinhando a fraca sustentação dos cenários   O vermelho sangue transpõe a silhueta dos feridos Amarrados a conflitos sentidos na cabeça degradada Provocados por gente que em lugar de celebrar a vida Se tornou amarga obscura desconchavada como praga   A cor violeta das flores murcha em desânimo nas pétalas E o tom laranja e amarelo esbatem-se num pôr-do-sol Que se repete num ciclo de nuvens brancas e cinzentas   Não me agrada o caos que as minhas mãos traçam Quando acabar este maremoto que me desintegra Criarei flores sobre este caos que desarvora Agitar-se-ão múltiplas pigmentações arrasando a confusão Apagarei a desordem e delinearei traços familiares acolhedores Paraísos terre...

Tempo lento

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  Foto; Ana Maria Oliveira Criei asco aos discursos pomposos Que capto de gente perdida amargurada Estonteantemente procurando novas vítimas Repetindo ciclos de toques contaminados Por paranoias medos narcisismos e débeis argamassas Respirando impacientes pelos pulmões alheios Que projetam enredos de distração de massas   Cada vez mais confortável na minha pele E no meu silêncio que gera melodias perenes De campos virgens onde as aves nidificam Traçando mapas imaginários sem artimanhas De mantras que criam em uníssono a vida   E executam estrondos sobre os cumes das montanhas   O que me aconchegava desapareceu nas redes De tráfego intenso na iminência da tragédia Na correria dos autómatos e dos escravos de falso charme Sozinha dito as orientações de bailados e meditações Que me facilitam o afastamento de silvados que me rasgam a carne   E neste balançar do corpo apenas sorrio ao pardal Que faz ninho por cima da minha...

Pequeno laço

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Há um pequeno laço que me toca suavemente E me transpõe para lá deste ambiente De silêncios e murmúrios Então movimento-me entre sentimentos Ultrapasso paredes emocionais em pântano intenso E permaneço por frações de segundo Em janelas iluminadas da memória onde por vezes descanso   Estou embrenhada em mim e na viagem que se apresenta solitária  Tenho por companhia as minhas mãos Que constroem abraços despertos pela brisa dos teus olhos Permaneces lá no frenesim de vida da minha lembrança de amor E sei que em milagre poderíamos voltar ao toque dos amantes Mas o desejo escondeu-se para lá do horizonte E a estrada está cortada interrompida pela tempestade do temor  

Corpo insubmisso

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                                                               Foto: Ana Maria Oliveira   Alucinam-me os ruídos das estradas homicidas Os sussurros dos humanos infelizes Preocupados com o andamento da vida em decaída Sobre pedaços decompostos denunciando cicatrizes    Desagradam-me os ginásios onde se moldam corpos Como se edifica uma escultura em declínio adiado Onde gotas alheias de suor se misturam Entre odores artificiais de gesto fabricado   Incomodam-me As transpirações as cinzas  As nuvens de areia Os rodopios de pó  A indiferença como gelo afiado Que se espeta no ventre E nos anuncia a morte das células  Revoltadas pela fraqueza da alma Pelos limites do corpo  Pelas necessidades escondidas Pela explosão do choque  Pelos orgasmos per...

Galgando fissuras

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Contrabalançando a zanga dos elementos que nos devoram Assisto à impiedosa agressão dos ventos ciclónicos Como se a natureza estivesse em revolta contra os atos humanos E chuvas a meio da noite erguem armadilhas para os viventes Como se nos alertasse para a incapacidade em que nos banhamos   Recusamo-nos a despertar e viver em harmonia com a Terra E este ser de acolhimento responde com revolta no ar Que nos fazem retroceder nos argumentos desastrosos Que nos levam a explorar desalmadamente e não a desfrutar   Continua a existir um rio suspenso de revolta Que alaga os campos de cultivo e os lares Corta estradas abre fissuras provoca derrocadas Destrói os bens por saldar dos homens confusos amedrontados Desesperados perante tamanho flagelo que denominamos de azares

A tela

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  Foto: Ana Maria Oliveira Contemplo embevecida a tela que mergulhou Certamente num golpe de transe fantasmagórico E permanece no mundo virtual exigindo visibilidade Constato atónita que desapareceu desta frequência Que materialmente retalha e distende tudo sem piedade   Tem laivos de flores alaranjadas brancas amarelas É um mar agitado que as detém ou um pântano traiçoeiro Faminto de iguarias e odores majestosos Adocicados pela premência de nascer em busca do sol Sustêm-nas um solo movediço de cor imprecisa As folhas erguem-se por segundos pedindo luz e aterram Na dimensão do indefinível em respiração indecisa   Procuro incessante o quadro que escolheu o oculto Adquiriu vida própria e esbateu-se com outras formas e tintas Outros materiais vindos de longe sobrevoaram-na Em rodopio como tempestade de areia E os seus grãos desmaiaram sobre os ribeiros de matizes Que deslizaram ao sabor da gravidade E do frenesim dos pincéis que esqu...

Idolatria

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    Foto: Ana Maria Oliveira   A autonomia dançou a roda e desfez-se em transcendência horizontal Imitou sedada o vizinho do lado invejando os seus domínios Em desterro obscuro de energia submissa Numa ínfima fração de segundo em que se idealizou ser rainha Desfaleceu na velocidade vertiginosa da cobiça   Cintilou de poder ilusório e foi feliz agitando os tentáculos Das possibilidades da vontade autoimposta sobre abismos A pobre nem se deu conta de que a identidade resvala Para a desintegração das partículas sem lugar a romantismos   Para que esgoto escorreram os valores e as escolhas Evaporando-se na necessidade de idolatria de modelos Transformados em ovelhas que seguem o lobo no souto Ignorando que não há seres superiores Surge a frivolidade do propósito de transformação no outro   Transformar a paranoia em estrelas sustentáveis é processo ingrato  Porque este labirinto que nos envolve amordaça-nos em violento...