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A mostrar mensagens de 2026

Cânticos

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Da profundidade da alma humana surgem cânticos De união com a Terra deslizando como veículo de alento A palpitar em todas as latitudes por veios labirínticos   A sonoridade da alma inventa-se na força Para subsistir em terrenos inférteis  Reflete-se na dinâmica do envolvente em pura aliança Como frequência em sopro nos mecanismos do espírito Envolve-se na diferença dos seres cingindo a semelhança    Esta melodia vibra na garganta dos destemidos No grito em tormento inaudível dos resignados Na dúvida inquieta e sombria dos famintos Na incongruência da lei dos homens encarcerados   É um cântico diário pleno de significado Somos guerreiros a respirar no centro de conflitos bravios Temos o céu como almofada de aconchego E o sol como amigo que nos sustém os dias sombrios   Esta ária acompanha os rebeldes Envolve-se com os criadores de sonhos Com os visionários que captam outras ...

Trilho

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  Foto: Ana Maria Oliveira Acompanho um trilho a direito onde reluzem os carris De margens desafogadas onde os humanos improvisam negociatas Na genética das gerações que abraçam as árvores   Paradas no tempo banal confiscando ilusões aos deuses Na imensidão da planície acolhedora de projetos gravados Pela misteriosa profundidade sideral Onde outrora germinavam arquiteturas em forma de fardos   E o trem que vem de longe e traz devaneios Proezas audácias depressões E ruturas imperativas com as algemas Das emoções desenfreadas e subtis manipulações    É colossal o temor que me devasta na miragem Destas carruagens de metal quais gaiolas de pássaros Acomodando a revolta o desânimo e as fantasias De quem tudo experienciou na batalha da vida Pois estes carris levam-me até ao sonho concretizado Mas também à obscureza da lei ditatorial em aberta ferida     A crueza com que me cubro para ultrapassar obstáculos  A ...

Setembro

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A calma de setembro levantou-se na penumbra do amanhecer Empurrou os lençóis para o fundo da cama  Tentou convencer-se que os seus dias acontecem Sem qualquer ruído nem perspetiva negativa Fazem sentido e cabimento na programação dos sonhos  E o minguar das roseiras tem gravidade relativa   Que temperaturas escaldantes são estas Que diminuem as pétalas das rosas Secam os seus caules e folhas As raízes agoniam sob o solo em brasa que amarga E nós que sufocamos por dentro gotejando suor Acompanhando os gemidos desta flora em sobrecarga   A euforia de setembro afasta os gestos pesarosos Instalando a energia do mar inconformado Que acolhe os guerreiros e os náufragos como barco Que flutua na efemeridade das cintilações poluídas  Perante radiações criminosas que derrubam os seres E impedem o orgasmo adiado pelas pontes destruídas   As quatro estações transformam-se Em sei...

Despedida

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A despedida é manhosa traiçoeira Cria fios de parasitas no coração de quem fica E nódoas negras para quem vai Mas a obscuridade da rutura pelos lençóis enfadonhos Pode transformar-se em luz que ilumina Em criatividade para quem materializa os sonhos    O rompimento pode florescer em sorrisos Pode ser água que brota da fonte fresca Para quem há muito morria no deserto E transforma a sede num ambicionado caudal que refresca   A despedida é imperativa no abraço ao mundo Na edificação da criatura prisioneira de delírios Mas como afirmar um adeus que definha Se as memórias persistem em perpetuidade E continuam a moldar as emoções que nos humanizam A finalizar ciclos e a entrar noutros em continuidade   Não há despedidas Há o mar que nos envolve sem subterfúgios E nos reinicia para o novo dia Encontramo-nos todos no mesmo plano de conforto No atalho entre artérias e o espaço sideral ...

Os malabarismos da aranha

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  Foto: Ana Maria Oliveira   O aranhiço escutou ciumento e invejoso Os sons harmoniosos da paisagem pura Na dissertação da fluidez das nuvens brancas E cogitou numa forma de transformar o dia em negrura   A viúva-negra peçonhenta e reativa foi absorver veneno Às minas encastradas em mundos paralelos Empreendendo a sua mezinha de horror Possuindo artifício possante que afeta as vítimas Provocando prazerosa e resoluta dor intensa espasmos e suor   O aracnídeo arquiteta armadilhas É mestra do canibalismo sem culpa em oratório Desafia os indivíduos da mesma espécie Com disputas duvidosas de território   A aranha é intolerante a invasores Não gosta que lhe conquistem o espaço Defende a teia em tom agressivo Passeando-se dissimulada por outros limites Combatendo a vítima em silêncio destrutivo   Vai aranha para o teu ninho Não confundas a tua teia feita espinho Com a limpidez das águas que escorrem da montanha ...

Contracorrente

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  Foto: Ana Maria Oliveira A náusea admoestou o corpo  Quis ser senhora das vias de passagem Das decomposições ácidas agrestes Originadas pelo fôlego prisioneiro dos vermes Que estrafegam os sonhos dos pedestres   Agora as vias permanecem obstruídas Pelas pedras como junções De estalactites e estalagmites Que com o tormento gozam descaradas Esperando o grito solto da contracorrente Em arquiteturas desanimadas   Nas protuberâncias dos aflitos O sujeito da contenda assiste incapacitado O mel e o fel envolvem-se em concomitância Na trama dentro do seu próprio ser limitado   Como acalmar o estado de padecimento Provocador de nuances obstruções Avalanches mordaças solidão E anseio de retornar à invisibilidade Como expulsar tamanha batalha Das entranhas sem lhes rasgar a vitalidade   Nódulos germinam na profundidade dos tecidos Rodeados de veias que palpitam esforço  O movimento continuo sem precisão An...

A fome

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A fome olhou através da velha janela Contemplou os pássaros que se pavoneavam Agitados e felizes debicando sobre a terra acastanhada Repleta de um emaranhado de árvores inférteis Onde outrora olivais viçosos tinham a sua morada   A fome por momentos ficou absorta Abriu então a boca e devorou a primeira refeição do dia Por entre ervas selvagens comestíveis Num espaço caótico de beldroegas e urtigas Fitando o tudo e o nada num amontoado de perecíveis     Levanta-se cedo a fome Umas vezes agoniada outras vezes entontecida Outras invadida por enxaqueca desmesurada Que a faz vomitar palavras de alento Para entidade superior ou energia sem nome Que sem cair a faça levantar do leito   A aceleração dos gestos imperativos A ginástica obrigatória de agachamentos Impedem uma refeição mais cheia Ela consome em modo automático Cinco da tarde e o almoço será agora  Mas a fome não dige...

Jejum

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    Foto: Ana Maria Oliveira A privação abraça-me na delicadeza das sonoridades Que arrebatam para uma estratosfera de sonhos É companheira de estrada e da subtileza dolorida Provocada pelo entupimento dos canais De acesso a outros patamares deslizantes Por colinas em desequilíbrio dividida   Chocalham os ossos dos defuntos revoltados Pela esquizofrenia dos aliados do caos em velocidade Saltando furiosamente de palco em palco Batendo os pés sobre andaimes em  instabilidade   A complexidade das arquiteturas em carne Escondem autoestradas de trocas atómicas Negociando a falência dos órgãos delineadores De arranha-céus à beira da fragmentação pela força amoral Dos elementos em envolvimentos frenéticos castradores   Enquanto a compatibilidade das almas espera O alinhamento na direção do alvo furtivo em  fluxibili dade O cruzamento gera oportunidades quânticas De criação de galáxias multicolores na imprevisibili...

Luzes néon

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  Foto: Ana Maria Oliveira     Um ruído ensurdecedor metralha os ouvidos Seres díspares deambulam hipnotizados pelo tesouro Diante de jogos exploradores de fantasias Que enriquecem uma indústria ávida de ouro   Crianças gritam de entusiasmo perante a oferta deliciosa  São outros sonhos outros quereres E um choro convulsivo assombrado pela deceção Prolonga o tempo de sofrimento Permanece à entrada do recinto de euforias De baloiços rotativos de fúria e loucura Um colchão onde saltos e saltos Criam sensações de controlo e voo em doçura   A mãe arrasta o rapazinho pequeno pelo braço Para fora daquele lugar estonteante de diversão Provocador de epilepsia em aguda carência Progenitora e filho estão tristes frustrados infelizes E desaparecem rapidamente por entre a multidão    Um pai incentiva o filho a atirar-se sobre a caixa das bolas A subir aos escorregas e adquirir a velocidade dos sonhos  O pai ...

A inquietude da tela

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Os odores da madeira antiga impregnam fluídos Que são absorvidos pelos objetos deixando mensagens Pelas paredes testemunhas de visões do passado Os armários acolhem ainda sopros na distância das vozes As gavetas agrupam artesanato concebido na calma das horas Ao compasso de agulhas mestras o utrora num bailado de mãos Para num amplexo se unirem à teia organizada A entrelaçar tangos corridos de nós criando pontos no ar Na singeleza e destreza branca pura amada   Visualizo a presença da tela e as rendas do passado Que outrora serviam de móbil na criação dos dias Uno-as numa miscelânea como se cada pigmento de tinta Entrasse em dupla sinfonia com os fios que por mãos mágicas Se transformariam em toalhas de mesa naperons e lençóis de linho Num tempo arcaico com cem anos de labuta E o solucionar problemas de sobrevivência sobre o ninho   Sei que o exercício é de catarse De constelações familiares à der...

Carga pesada

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Adormecer sob a lua cria mundos Que trazem com eles mensagens de força Porque embora embarque num voo de calmaria Os membros alertam para uma vigília de assombração Pois que nada sobre a Terra é o que parece Não importa se permaneço numa bolha de proteção     Carrego dentro de mim ciclos de pobreza   Cinzentos castelos de nobreza   Malfadados afogamentos nos rios mais longos   Soterramentos de agonia no frio húmido Avalanche de lama gelada na construção de pontes Que servem agora de cenários macabros aos suicídios Emergentes neste tempo de loucos onde secaram as fontes   Trago comigo o veneno bebido na amargura De um campo infértil onde os humanos debandaram Por conta e risco sem espaço para crescer Com tanta morte à solta e viúvas abandonadas Enfrentando a solidão com um filho acabado de nascer   Acalento em mim os bastardos Que reivindicam a presença de um pai Pris...

O esbatimento das cores

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Serão os meus olhos que se turvam de lágrimas invisíveis E me impedem de contemplar As variantes cromáticas do arco-íris em movimento Ou é o exterior que se modifica na estranheza dos desencontros De gente apressada em construir o seu próprio encarceramento   Entro no templo que me levará para a zona de conforto  Há um zumbido a metralhar nos ouvidos Baralham-se as nuvens mesclando a capacidade de sonhar Subo escadas com a respiração apressada  Mas já não corro com a pressa de chegar   Constato a distância que me separa dos outros Não há entusiasmo em mim nem vontade nem trauma Para criar artifícios que não me pertencem  Sentir unicamente o silêncio apaziguando corpo e alma   Inevitavelmente é para lá que me dirijo Um lugar onde não haja nem calor nem frio  Para que deixe de sentir a premência de fugir do alarido E dos problemas que não são meus neste sufocante estio ...

Vibração flutuante

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A vibração agita as sinapses provocadoras de sensações Na ligeireza vertiginosa da impermanência  Ignoro a náusea da oscilação ondulante do corpo Aguardando impaciente a incisão profunda do silêncio  Que me prende ao chão tapete rebelde sob os pés  Onde madeira metal e terra criam paladares De calorias extintoras de vontades sentinelas Provocando frequências invisíveis que transportam Os devaneios para dimensões paralelas   Germina em perfeita armadilha um enfraquecer da energia Devido às forças de resistência e atrito num impulsor desligado Será apenas um turbilhão de asas sem quebra nem corte Um amortecimento esquecido entre corredores labirínticos Planando na infinitude inalcançável sem gritos nem morte   Estou e não permaneço apenas aguardo o vómito Na inquietude divinatória de uma existência em ignorância Caminho e não me movo na aparente contradição Inconformada com a ...

Marés salgadas

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  Foto: Ana Maria Oliveira As marés serenas atenuam as trepidações dolorosas sob o peso Do glaciar à deriva dentro dum cenário apocalíptico A espuma dançarina beija a fragilidade dos músculos Quando desliza pelas rochas em tons de verde como aguarelas Explodindo em laivos de esperança aguardando a abertura De portais sincronizados no tempo feiticeiro das estrelas   Agora os passos reconquistam o sal da vida A latejar na flutuação em águas transparentes Contemplando o céu de nuvens brancas Segredando esconderijos como refúgios de sonhos privados Vislumbrando os cardumes de peixes que se movimentam Contíguos ao meu olhar ansiando a miscigenação dos estados   Agosto que me envolves com a força da coragem Com a energia da confiança e determinação De prosseguir depois da tempestade em dura madrugada Liberto-me do pântano que forçosamente tive de atravessar Ouvindo os sussurros do meu corpo orientando-me na jornada   Fiz da solitud...

Murcham as rosas

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Ramos de espinhos secam ao sol sem vida Como se braços fossem cortados retirando-lhes o alimento Porque o calor molda outro mundo que derrotado enlouquece Enquanto raízes lutam por água esquecendo o inverno agitado E a canícula mata outros seres e as folhas amarelece   A gata vadia atenta no telhado do galinheiro Observa o trajeto dos voadores serenando no poiso Castelo eterno da galinha princesa Pois há um espaço permissivamente partilhado Com as rolas, os pombos e os melros na natureza   A osga de barriga cheia esconde-se no aglomerado caótico Na desarrumação dos elementos que permanecem suspensos Dependentes de uma vontade adiada Enquanto o astro rei se ergue e esconde da Terra soberana Indiferente aos sonhos programados Tatuados algures no interior da alma humana   Murcham as rosas nesta atmosfera de mudanças Onde a cor da luz  se modificou E a quentura outrora aconchegante é já si...