Tempos entrançados

 

Foto: Ana Maria Oliveira


As gotas de água que se prendem aos ramos do arvoredo

Observam cintilantes o chilreado de incógnitos pássaros em prazer

E a caneta improvisada que desliza na folha pálida amarrotada

Reclama do negrume do céu pronto a vomitar o amanhecer

 

A expectativa ténue esbate-se na visão de um dia sereno

Capta energias múltiplas nas reentrâncias misteriosas dos poços

De uma fortaleza de ecos abafados vibrando pelo solo inundado

Fissurado pelos abalos desagregadores de músculos e ossos

 

Não há tempo nem disposição para amparar este desalinho

A decomposição dos tecidos e o zumbido no ouvido

O som das areias movediças de uma tempestade do deserto

A trepar e a descer pelas dunas do meu corpo dorido

 

Não há espaço para abraçar a criança de outrora

Com os sonhos coloridos que renascem desenvoltos sem pudor

Numa magnificente tela colossal de puro cinema

E a menina imprevisível que questionava dogmas sem nexo

Numa premência de significação resplandecente

Continua na íntegra explorando o livre pensar em contínuo processo

 

Histórias imaginadas na força de uma intuição em ascensão

Onde humanos contracenavam em enredos de tragédia

Que captava a relatividade desconcertante do existente

Numa afirmação conseguida no infinito inatingível da criação

 

Procuro essa criança e encontro-a na ponta dos meus dedos

No mapa desenhado em amor aceso da minha memória

Na inquietude palpitante dos meus gestos

No meu coração que ainda bate em rebeldia salutar

Na serenidade aconchegante da minha alma

No intelecto livre devastando a rigidez sombria do pensar

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