Asas inquietas

 

Foto: Ana Maria Oliveira


 

O bailado de voadores espera-me algures na interceção espaço tempo

O parecer consciente aquieta-se adejando leve como a passarada

Num trono artificial oscilante que nunca consegue granjear

A real essência do planar e o sentir da criatura alada  

 

Este impulso que me atira para a exploração dos pensamentos

Cativa-me na fração ínfima da duração de uma faísca

Em viagem virtual trespasso muralhas turvas e instalo-me

No território que anima e se funde para que a vida persista

 

Pois ao mergulhar fundo na existência

E apesar da agitação e apelos de outras fainas e inventos

Faço o voo em direção ao portal da liberdade em resistência

E o Tejo serpenteando testemunha a tragédia e os renascimentos

 

Anima-me o som das cigarras que cantam nos silvados

Acalmam-me os lagartos que se estendem ao sol sobre as pedras

Faço pacto com as corujas que vigiam a postura dos humanos

Desfaço-me contra as falésias onde os falcões nidificam

E o Tejo que separa afetos e submerge desenganos

 

Contemplo as cegonhas que erguem ninho nos lugares inacessíveis

Transformo-me em águia imponente que do céu fixa a presa

Entro em danças suaves entre os flamingos dos estuários

Sinto os pés enlameados colados ao chão húmido

E o Tejo a dividir anseios corpos e amores missionários

 

Flutuo como num sonho rumo à aridez do despovoado

Onde as garças prazerosas animam a paisagem

Sorrio à poupa galante de ramo em ramo num saltar impetuoso

Abraço bandos de pardais sobrevoando charcos e ribeiros

E o Tejo que subtrai das minhas mãos o presente mais precioso

 

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