A tela

 

Foto: Ana Maria Oliveira


Contemplo embevecida a tela que mergulhou

Certamente num golpe de transe fantasmagórico

E permanece no mundo virtual exigindo visibilidade

Constato atónita que desapareceu desta frequência

Que materialmente retalha e distende tudo sem piedade

 

Tem laivos de flores alaranjadas brancas amarelas

É um mar agitado que as detém ou um pântano traiçoeiro

Faminto de iguarias e odores majestosos

Adocicados pela premência de nascer em busca do sol

Sustêm-nas um solo movediço de cor imprecisa

As folhas erguem-se por segundos pedindo luz e aterram

Na dimensão do indefinível em respiração indecisa

 

Procuro incessante o quadro que escolheu o oculto

Adquiriu vida própria e esbateu-se com outras formas e tintas

Outros materiais vindos de longe sobrevoaram-na

Em rodopio como tempestade de areia

E os seus grãos desmaiaram sobre os ribeiros de matizes

Que deslizaram ao sabor da gravidade

E do frenesim dos pincéis que esqueceram

O propósito estonteante da obra realizada

 

Planeava acabar com aquele solo impreciso

Defeituoso como os passos que dei

Pela vida fora e que me roubaram

O contentamento de simplesmente existir

Queria destruir aquele flutuar em mar estagnado

Onde as magnólias murchariam e diluiriam

Para sempre a beleza em cenário parado

 

 Não sei onde se escondeu a tela

Agora que a queria de volta ela simplesmente

Vestiu singulares roupagens gerando novos jogos estéticos

Adquiriu vida própria e vingou-se de mim

Convence-me que a louca sou eu que manobro as espátulas

Em estado de inebriamento espiritual qual ardente viagem

Numa aceleração descomunal numa ânsia de invenção

Um destes dias em auto-hipnose desenho-lhe asas

Para definitivamente romper as algemas que a cegam

 

 

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