Velho cansaço

 


 

Foto: Ana Maria Oliveira

Envolve-me uma avalanche gelada de sucata

Um emaranhado de metais aguçados em teias de gigantes dores

Que atapetam um chão onde sementes aguardam a luz

Para germinarem em mapas fluidos e ondulados de cores

 

O abandono provocou sob os meus pés cenários sombrios

Propícios aos roedores perenes sobreviventes

Cruzando o espaço exíguo capto energias de afastamento

Que se repelem em faces que disfarçam antagonismos delirantes

 

E a brado que me liga ao mundo mantém o silêncio

De quem se abriga num refúgio isolado na cordilheira

A desmesura pula egoísta por todos os cantos

Aluvião imprevisível e sinistra que me soterra

 

A ganância enlaça com paixão a cegueira

Enquanto milhões se afundam num padecimento atroz

Pequenos príncipes se mantêm a flutuar no mar dos arrogantes

A impassibilidade cria o esfarelamento das almas

E o tempo sábio nivela as criaturas pela semelhança

E enaltece pela diferença perante exterminações alarmantes

 

Há um velho cansaço que desiste do respirar

Permite a triste e severa apatia que retalha o corpo e a mente fria

É matreiro preguiçoso manipulador e quer-nos derrubar

Bordando alinhavos caóticos em fissuras que disfarçam agonia

 

Vidas de cavalgadas sem sentido em rituais de estranhezas

Ignoram a serpente que morde a própria cauda

Que adormece serena ao abrigo da chuva

Desconhecendo os gritos aflitos dos humanos encharcados

Sem paliativo para as suas feridas e paranoias

Sem esperança para as suas impotências e fraquezas

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