Corpo insubmisso
Foto: Ana Maria Oliveira
Alucinam-me os ruídos das estradas homicidas
Os sussurros dos humanos infelizes
Preocupados com o andamento da vida em decaída
Sobre pedaços decompostos denunciando cicatrizes
Desagradam-me os ginásios onde se moldam corpos
Como se edifica uma escultura em declínio adiado
Onde gotas alheias de suor se misturam
Entre odores artificiais de gesto fabricado
Incomodam-me
As transpirações as cinzas
As nuvens de areia
Os rodopios de pó
A indiferença como gelo afiado
Que se espeta no ventre
E nos anuncia a morte das células
Revoltadas pela fraqueza da alma
Pelos limites do corpo
Pelas necessidades escondidas
Pela explosão do choque
Pelos orgasmos perdidos
Pelos beijos consentidos
Sinto o corpo insubmisso pelos projetos fracassados
Pelos companheiros desnorteados
Pela degradação das emoções
Pelo afastamento sem contenções
Pelos trilhos noutras paisagens
Pela fama transitória das aragens
E nesta cissura temporal sou brisa que se desfaz
Regressando ao âmago do ser que em mim vibra
Pelas caminhadas extraviadas sob o sol fugaz
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