Tempo lento
| Foto; Ana Maria Oliveira |
Criei asco aos discursos pomposos
Que capto de gente perdida amargurada
Estonteantemente procurando novas vítimas
Repetindo ciclos de toques contaminados
Por paranoias medos narcisismos e débeis argamassas
Respirando impacientes pelos pulmões alheios
Que projetam enredos de distração de massas
Cada vez mais confortável na minha pele
E no meu silêncio que gera melodias perenes
De campos virgens onde as aves nidificam
Traçando mapas imaginários sem artimanhas
De mantras que criam em uníssono a vida
E executam estrondos sobre os cumes das montanhas
O que me aconchegava desapareceu nas redes
De tráfego intenso na iminência da tragédia
Na correria dos autómatos e dos escravos de falso
charme
Sozinha dito as orientações de bailados e meditações
Que me facilitam o afastamento de silvados que me
rasgam a carne
E neste balançar do corpo apenas sorrio ao pardal
Que faz ninho por cima da minha porta e insiste
Em trazer galhos e folhas que recolhe entusiasta
Observo o pequeno ser voador diversas vezes
Carregando material para o abrigo
Entro em casa tentando não o perturbar
Nas suas preocupações construtivas longe do perigo
Já o vi em ação mesmo em dias de chuva
É incansável este pequeno ser de asas
E o fechar de olhos de êxtase acolhe o seu canto em
lealdade
No aconchego de um anjo que paira em torno de mim
Que também me ampara as tristezas em liberdade
Saboreio este tempo devagar pois quero prolongar esta
sensação
De entrega às vozes harmoniosas que induzem a
tranquilidade
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