Base de sustentação

 

Foto; Ana Maria Oliveira


 

O julgamento assentou na praça mais exposta

Do reino intempestivo de massas movíveis informes

Com grilhões invisíveis cegando os enxames que se escondem

Na instabilidade feroz e demolidora de turbilhões enormes

 

A base de sustentação é ligeira amorfa e ténue

E tem os dias contados nos calendários inventados

Em noites eternas dentro do vazio aparente

Dos exploradores carnífices de minérios à solta

Que pisam afincadamente onde os vermes mastigam a terra

Cheiram inebriados os excrementos das cavalgaduras

Julgadas pelos pedestres feiosos e imbecis

Agora dizimados pela lógica abrupta dos algoritmos

 

 Sentir a infinitude dos espaços não basta

É perentório capturar o invólucro subtérreo

Alcançando respiráculos de sobrevivência

Pois o assentamento do pilar desmoronou-se

Sobre a minha cabeça e o meu querer

E estacas já não seguram e perpetuam o riso

Nas festividades fictícias do aparecer e parecer

O olhar encerra-se no incómodo resplandecente das vozes

Confusas e atarantadas pela névoa das máscaras

 

Converso com a dor num corpo em vertigem

Que se esconde nas lágrimas cortantes de fissuras

No ritmo alienado e patético das mutabilidades

Mas não é esta cadência lenta em direção

À exclusão fatal do ser em movimento

Que preenche a reflexão por entre a dança aérea das mãos

É antes o constatar do sentir acelerado da viagem

Do descartar de genuinidade sem trilho nem comboio

E a invasão parasita das maquilhagens deturpantes

Corrompendo e desfigurando as ligações e conexões

Como alicerces inabaláveis nos sustentáculos de apoio

 

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