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Cinematografia do desencanto

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Nasce o sol em laivos de laranja e rosa Quando a minha alma navega ainda na tua frequência Distancio-me do ruído do trânsito de gente apressada Que obedece ao transe coletivo programado Nos chifres de uma cavalgadura exaltada que dá pelo nome De receio antecipado das catástrofes iminentes Provocadora de ilusões aceleradoras de neuropatias invisíveis   Baralho-me com o gentio e deixo-me levar por premissas erradas Necessito delas para me sentir em movimento enquanto escolho Proteger-me do caótico das sociedades humanas Há um lado de mim que permanece desperto às teias do exterior Há um outro inabalável mapeado nas sinapses que me sustêm Que me envolvem meigamente com a flauta dos Andes E mergulho novamente na profundidade do teu olhar   Afasto-me da ignorância da aprovação social Não capto a trama dos Influencers apenas mãos geladas e hirtas Narcisistas abrem-me os braços sugando afetos Abrilhantados...

Madrugada de domingo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Contemplo o céu cinzento escuro do alvor Com laivos ténues de um azul tímido Lá fora onde o musgo teimosamente pinta o chão Gotas de água como cristais beijam os galhos E deixo-me alagar pela chuva suave que me conforta então   Nada se agita neste mistério de renascimento do rei Sol Os ramos das árvores do quintal permanecem estáticos Como se estivéssemos dentro de uma campânula de vidro Que nos protege contra tempestades em lugares monásticos   O silêncio transporta com ele uma palavra de quietude Vontade de respirar nesta tranquilidade alheada Em que nada mudou exceto os rebentos vermelhos da camélia Que timidamente desabrocharam lutando pelo seu espaço contíguo À roseira branca que permanece intacta na sua elegância velada   E outras cores vão surgindo na transição da noite para o dia Um melro esvoaça por cima dos telhados em cenário encoberto As gaivotas agitam-se bem lá no alto invadindo...

Asas inquietas

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  Foto: Ana Maria Oliveira   O bailado de voadores espera-me algures na interceção espaço tempo O parecer consciente aquieta-se adejando leve como a passarada Num trono artificial oscilante que nunca consegue granjear A real essência do planar e o sentir da criatura alada     Este impulso que me atira para a exploração dos pensamentos Cativa-me na fração ínfima da duração de uma faísca Em viagem virtual trespasso muralhas turvas e instalo-me No território que anima e se funde para que a vida persista   Pois ao mergulhar fundo na existência E apesar da agitação e apelos de outras fainas e inventos Faço o voo em direção ao portal da liberdade em resistência E o Tejo serpenteando testemunha a tragédia e os renascimentos   Anima-me o som das cigarras que cantam nos silvados Acalmam-me os lagartos que se estendem ao sol sobre as pedras Faço pacto com as corujas que vigiam a postura dos humanos Desfaço-me contra as falésias...

O vazio da casa

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  Foto: Ana Maria Oliveira Envolvem-me musicalidades que abraçam e rompem portais de luz Qual suavidade multicolor dos campos na primavera Que aliviam as mágoas e desilusão repartida Pelos enganos de cronos mágico cruel Indiferente à dor que nos amassa Nos varre a alma para incerta dimensão E nos distende e encolhe em transmutação que nos trespassa   Enrola-se em mim o cobertor macio faminto de calor E sussurro ao frio que não faça pacto com a tristeza Que mora algures no meu corpo vergado Às intempéries da sobrevivência deste labor desencantado   Recorda-me os cânticos e os risos as danças e farra Fado que me prende ao som harmónico e doce qual oração Das cordas bem timbradas de uma guitarra Junto ao bater determinado do temerário coração   E peço ao vazio melodioso e luzente da casa Que me envolva no ritmo da paixão pela vida que persiste Me beije pelo entusiasmo dos toques e sentires humanos E me recorde que o amor germi...