Sem premência

 

Foto: Ana Maria Oliveira


Depois da enxurrada perdida por entre as artérias

Do corpo que me sustém sobre a aridez das falas humanas

Há um sol em vigor que me invade as veias

A palpitarem por vida sem receios nem alarme

As hemorragias permanecem apenas numa ténue janela da memória

Que me assalta de quando em vez lembrando a fragilidade da carne

 

Dir-se-ia que há um íman que me prende a este chão

Qual criança inventiva ao conjeturar quebradiços castelos

Perceciono então que meu campo de visão permanece o mesmo

Sendo palco de sonhos e lutas assombradas por pesadelos

 

Como o horror pode estar por detrás de um sorriso

Como a vergonha se esconde envolvida

Nos tentáculos do silêncio esperando o alívio na morte

Quando o sangue pisado se faz tatuagem da descrença

Assola-me a incongruência e a cobardia dos homens

Perante episódios de insanidade e manipulação psicológica

Qual intrusos que entram sem pedir na minha lembrança

 

Bonecas de porcelana permanecem hirtas

Cinzentas do pó entranhado de décadas

Prova de registos diabólicos enganos traições

Viagens fictícias e ingratidões

Relíquias de mágoas passadas como o vento

Mas agora os passos são lentos na calmaria dos dias

Transpus um portal do tempo sem espias

Sem enredos menores sem temores

Sem robóticos amantes nem falsos guardiões

 

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