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Imperfeições

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  Foto: Ana Maria Oliveira Gosto de imperfeições pele enrugada dentes assimétricos A perfeição transmite-me frieza artifício falsidade correção Há um encontro plácido no pormenor único que identifica um ser Uma alma em frequência de leveza paz e aceitação   Um grupo de velhos conversam entre si sem um sorriso Apenas contam os dias de frio em gesticulações monótonas Pela carícia ténue de calor que os gratifica pelo meio dia Que delícia de cenário lembrando ancestrais Volto lá à mesma hora porque sei que os vou encontrar Com eles esqueço cantorias desafinadas Disfarçadas de traições e catanadas   Um casal aparece carrancudo com enfado visível Como se fizessem da vida uma disputa incontornável E eu esmiolando a velha empada de galinha Que teima em não entrar na garganta de forma insuportável   Degluto com dificuldade assolando-me um enjoo De ruídos de galináceos que cacarejam acusatórios Lançando a vista e a crista para terrenos...

Violência miserável

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  Foto: Ana Maria Oliveira A neve invade regiões mais altas E o deslumbramento branco Faz esquecer as carnificinas das guerras A fome e o decepar de crianças Olvidamos num ápice a exclusão Do que não enxergamos na frente do nariz Vivendo momentaneamente estados catárticos de ilusão   As pelejas impulsionam a tecnologia A necessidade aguça a esperteza E os vírus inteligentes universais e carentes Criam formas de entrar em corpos alimentando-se De matéria animada em fainas sobreviventes   Os paradigmas momentâneos de exploração do humano Arrastam odores de pestilência navegando No instinto medroso da sobrevivência e rugem Holocaustos na crista dos galos de capoeira Que cantam na madrugada da chacina em ferrugem   As sonoridades buliçosas dos famintos do poder Tornam tresloucados seres provocando a violência miserável Bloqueando os canais de libertação Hipnotizados pela dependência de códigos físico-químicos Obedecendo a...

Tempos entrançados

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  Foto: Ana Maria Oliveira As gotas de água que se prendem aos ramos do arvoredo Observam cintilantes o chilreado de incógnitos pássaros em prazer E a caneta improvisada que desliza na folha pálida amarrotada Reclama do negrume do céu pronto a vomitar o amanhecer   A expectativa ténue esbate-se na visão de um dia sereno Capta energias múltiplas nas reentrâncias misteriosas dos poços De uma fortaleza de ecos abafados vibrando pelo solo inundado Fissurado pelos abalos desagregadores de músculos e ossos   Não há tempo nem disposição para amparar este desalinho A decomposição dos tecidos e o zumbido no ouvido O som das areias movediças de uma tempestade do deserto A trepar e a descer pelas dunas do meu corpo dorido   Não há espaço para abraçar a criança de outrora Com os sonhos coloridos que renascem desenvoltos sem pudor Numa magnificente tela colossal de puro cinema E a menina imprevisível que questionava dogmas sem nexo Numa pre...

Interpretação escassa

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Nesta hermenêutica bamboleante perdemo-nos Pelas escadas de acesso a infinitas presenças Em oscilação interminável em jogo baralhado Na apreensão do teu encadeamento Em deflagração de ideias adulterado   E não consigo alcançar nem os destroços Nunca te vejo por entre esta devastação e ventania Pois segues paralelamente à distância dos meus passos Transformaste-te em fantasma risível que assobia   És frequência quebradiça com que me levanto Vibras subtil na penumbra com que me deito Com que me alimento e com que medito E neste emaranhado de ondas que agridem a rocha E retornam magneticamente ao mar Assim me desintegro e de forma impercetível Misturo o pensamento com outros planadores no ar Criando um fogo de artifício temporário Que se apaga quando a festa mundana se acabar   O significado do mundo flutua borbulhante   Dentro do circo rígido da perfídia significação Navegando nas ...

Vozes do Alentejo

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  Foto: Ana Maria Oliveira Sobre um campo de batalha emocional que fragiliza Neutralizo os registos de vozes familiares gritando inglória Mas bem sei que esses timbres permanecem bem intensos Nos códigos persistentes da minha própria memória   O clamor e o grito transbordam em melodia Toca-me ao de leve um rumor feito gracejo Vislumbro um lampejo transformado em presença Que me transporta para o sol escaldante do Alentejo   A garganta aperta-se perante cantigas a vários tons Sai-me um gaguejar rouco abraçando o silêncio Percorro as ruas mágicas do estimado lugarejo Subo as escadas ansiando o descanso e adormeço Num bocejo em pleno centro da bela planície do Alentejo     Contemplando da janela o trajeto das estrelas cadentes Riscando o céu noturno e anunciando o canto perpétuo do fado Antevejo um abraço carinhoso de vocalizações Que rompem o vento transformando a brisa em suave brado   E surge o coro misto que sabe...

Tsunami de lixo

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  Foto: Ana Maria Oliveira Revolta-me que a idolatrada evolução tecnológica Não seja acompanhada por mais brilho mental Insurjo-me contra o tsunami de informação Que arrasta com ele o lixo contaminador de cérebros Que provoca decadência espiritual e intelectual   Desafortunadamente as mulheres são trucidadas E na sua hipersensibilidade optam pelo suicídio Pois é avassaladora a inquietação pela opinião alheia Sendo pelas situações psicossociais asfixiadas   O eu tem apenas um autodomínio fragmentário A inteligência humana rebela-se contra as algemas Redimensionemos a plutocracia que é indigna e pútrida Pois provoca situações em que o homem é mártir da história social   E a dignidade é violada a cada instante em praça pública   Pululam audiências apáticas inertes Afundando a sua honraria no conforto do sofá Estáticos e deprimentes adoradores de conhecimento sem crítica Nevróticos provocam o malogro da consciência sociopolí...

Planar no caos

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A vida fetal obedece às leis do acontecer rogando visibilidade E o meu coração treme por perdas desgastadas em desnorte Como se a caprichosa magia promovesse indiferente a torrente vital Permitindo a verdugos que trespassem os sonhos De frágeis prisioneiros deste sombrio arraial   Agitamos a capacidade de superar as mínguas Mas a desordem das emoções ergue espadas na defensiva E enquanto a ponderação pelas dores alheias gera luminosa coerência O meu coração quebra o ritmo conduzindo-me para regiões áridas   Pela brisa que desprende as mágoas e dispersa os viventes em potência   Em cada invólucro que revoa em direção a outras geografias Vai a missiva para que acordem da letargia combalida Mas como parasitas viscosos os incompetentes são eleitos E o meu coração salta aturdido para outra dimensão Porque na produção de ideias os criativos à eliminação são sujeitos   Sem caos seríamos infrutífero...

Velho cansaço

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    Foto: Ana Maria Oliveira Envolve-me uma avalanche gelada de sucata Um emaranhado de metais aguçados em teias de gigantes dores Que atapetam um chão onde sementes aguardam a luz Para germinarem em mapas fluidos e ondulados de cores   O abandono provocou sob os meus pés cenários sombrios Propícios aos roedores perenes sobreviventes Cruzando o espaço exíguo capto energias de afastamento Que se repelem em faces que disfarçam antagonismos delirantes   E a brado que me liga ao mundo mantém o silêncio De quem se abriga num refúgio isolado na cordilheira A desmesura pula egoísta por todos os cantos Aluvião imprevisível e sinistra que me soterra   A ganância enlaça com paixão a cegueira Enquanto milhões se afundam num padecimento atroz Pequenos príncipes se mantêm a flutuar no mar dos arrogantes A impassibilidade cria o esfarelamento das almas E o tempo sábio nivela as criaturas pela semelhança E enaltece pela diferença per...

Fragilidades

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  Foto: Ana Maria Oliveira Sou trespassada por hermenêuticas rastejantes Que foram edificadas em constrição de um movimento perpétuo Orientado para o desafio que se ergue para lá Do estado fictício e fátuo dos amantes   O jogo heurístico sincopado pelas mãos desafiadoras Projetam um descampado ameno Com borboletas esvoaçantes em ondulação provisória E libélulas faiscantes num sol afetuoso Enquanto ainda necessito de me libertar Dos cabos suspensos da âncora da memória   Convicta que essa recreação de procura e descoberta Persegue-nos entusiasta pela vida fora Tenho de me dar oportunidade de uma pausa Reter as mãos geladas em torno do copo de chá quente Aguardar que o brilho retorne ao corpo e à alma Num deslindar sistemático de formas de ser descrente Pois se os humanos gritassem em uníssono As suas mágoas e desesperos em náusea cruel O planeta que nos acolhe explodiria Em derramamentos de sangue e fel Agora o espanto do exterior ...

Concebidos na camuflagem

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  Foto: Ana Maria Oliveira  A memória trai-me afundando a fragilidade No compasso da desorientação momentânea Recupero da epifania aleatória de luz E num tempo que me assiste Recupero o volante da viatura que me conduz   Não quero saber das perfeições escorregadias Quero que as horas me distraiam na correnteza dos fluidos Criados na camuflagem gravitacional do desencanto E no mimetismo do jogo do oculto Perante o alheamento com que me encubro Numa bolha protetora olvidando o pranto   Respiro fundo comtemplo o envolvente Capto a estrada deslizante desenhada Por delírios que me envolvem como colete de forças Retomo a direção por entre a bruma que me faz refém Desloco-me em ziguezague intermitente na camuflagem Liberto-me a tempo relembro quem sou Vibro em prazer pela conexão primordial em sagrada aragem Cansada de absorver produtos de venda livre por algozes Suspensos de membros andantes enfraquecidos Desfaleço em aborrecimen...