Memórias do Alentejo

 

Foto: Ana Maria Oliveira


 As tarrafas ainda subsistem em caixa frágil

No emaranhado das redes comprimidas pela linha de chumbos

Aguardando a homenagem a rituais de sobrevivência

Esperando o apontar da objetiva criadora de sonhos em alento

Provocando a fotografia liberta mesmo em paragem incerta

Do lançar sobre as águas mais promissor recolhendo alimento

Construindo palcos para cinematografia eufórica

Descobrindo enlevos de postura mais serena em memorandos

Amando e admirando a feição mais insurreta

Por entre esconderijos dispersos pela raia

Germinadora de paixões ocultas e contrabandos

 

Os peixes desapareceram da prisão dos fios

Permanecem agora nas lembranças remotas do Alentejo

Os tresmalhos perderam-se nas cirroses ardentes

Contaminadas pelos charcos que secaram algures

Onde as cigarras encantadas rebentam em chiadeiras estridentes

Perante o calor que aperta no estio em acasalamento cortante

E os cágados refugiaram-se nas sombras do paraíso perdido

Em esculturas residuais no centro de um campo escaldante

 

Agora as cobras de água sufocam por entre as silvas

E nem mãos curiosas se permitem afugenta-las

Ao som do barulho das rodas da carroça puxada por jumentos

E mulas pacientes num solo insubmisso

Calcorreando desnivelamentos por veredas mistério

Desfrutando das lutas e mágoas do rio Sever fronteiriço

 

Dormir ao relento em noites de verão tornou-se

Majestosa experiência em geografia raiana

Desabrocha em pura rebeldia única e eterna

Captando climas tórridos sufocantes reunindo gerações

Onde lontras desapareceram agora timidamente do seu habitat

Afloram na memória reconhecimentos degustações gastronomias

Criando o milagre do retorno reminiscente a outras vozes e risos

Gravadas na luz como se fossem perpétuas danças e melodias

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O palco da indiferença

Débil memória

Desligamento