A inquietude da tela

 

Foto: Ana Maria Oliveira


 

Os odores da madeira antiga impregnam fluídos

Que são absorvidos pelos objetos deixando mensagens

Pelas paredes testemunhas de visões do passado

Os armários acolhem ainda sopros na distância das vozes

As gavetas agrupam artesanato concebido na calma das horas

Ao compasso de agulhas mestras outrora num bailado de mãos

Para num amplexo se unirem à teia organizada

A entrelaçar tangos corridos de nós criando pontos no ar

Na singeleza e destreza branca pura amada

 

Visualizo a presença da tela e as rendas do passado

Que outrora serviam de móbil na criação dos dias

Uno-as numa miscelânea como se cada pigmento de tinta

Entrasse em dupla sinfonia com os fios que por mãos mágicas

Se transformariam em toalhas de mesa naperons e lençóis de linho

Num tempo arcaico com cem anos de labuta

E o solucionar problemas de sobrevivência sobre o ninho

 

Sei que o exercício é de catarse

De constelações familiares à deriva

Entre batalhas de coragem

Como prolongamento de uma via segura

Para a compreensão das ausências

E neste processo de incorporação

Apaziguo a privação das vozes que me criaram

Dos sorrisos que me incentivaram

Das palavras que me confortaram

E do olhar seguro com que para a vida me encorajaram

  

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O palco da indiferença

Desligamento

Débil memória