Marés salgadas

 

Foto: Ana Maria Oliveira


As marés serenas atenuam as trepidações dolorosas sob o peso

Do glaciar à deriva dentro dum cenário apocalíptico

A espuma dançarina beija a fragilidade dos músculos

Quando desliza pelas rochas em tons de verde como aguarelas

Explodindo em laivos de esperança aguardando a abertura

De portais sincronizados no tempo feiticeiro das estrelas

 

Agora os passos reconquistam o sal da vida

A latejar na flutuação em águas transparentes

Contemplando o céu de nuvens brancas

Segredando esconderijos como refúgios de sonhos privados

Vislumbrando os cardumes de peixes que se movimentam

Contíguos ao meu olhar ansiando a miscigenação dos estados

 

Agosto que me envolves com a força da coragem

Com a energia da confiança e determinação

De prosseguir depois da tempestade em dura madrugada

Liberto-me do pântano que forçosamente tive de atravessar

Ouvindo os sussurros do meu corpo orientando-me na jornada

 

Fiz da solitude o meu lema e do silêncio o estandarte

Escolhi a viagem mais solitária

Constatei o sofrimento dos que guerreiam

As astúcias com que roubam de vítima em vítima

Captei-lhes também o sadismo com que se pavoneiam

 

Alcancei a planície onde os ventos são mais calmos

Onde as águas deslizam pelos veios da terra

E em pura gratidão ainda acredito na beleza dos gestos

Germinando entre risos genuínos que meu coração encerra

 

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