Setembro

 

Foto: Ana Maria Oliveira


 

A calma de setembro levantou-se na penumbra do amanhecer

Empurrou os lençóis para o fundo da cama 

Tentou convencer-se que os seus dias acontecem

Sem qualquer ruído nem perspetiva negativa

Fazem sentido e cabimento na programação dos sonhos 

E o minguar das roseiras tem gravidade relativa

 

Que temperaturas escaldantes são estas

Que diminuem as pétalas das rosas

Secam os seus caules e folhas

As raízes agoniam sob o solo em brasa que amarga

E nós que sufocamos por dentro gotejando suor

Acompanhando os gemidos desta flora em sobrecarga

 

A euforia de setembro afasta os gestos pesarosos

Instalando a energia do mar inconformado

Que acolhe os guerreiros e os náufragos como barco

Que flutua na efemeridade das cintilações poluídas 

Perante radiações criminosas que derrubam os seres

E impedem o orgasmo adiado pelas pontes destruídas

 

As quatro estações transformam-se

Em seis meses de inverno e seis de inferno

Para quem trabalha no descampado da vida

Combate a tristeza da impotência

Em horas obscuras dança com a resiliência

Qual Sísifo que não pensa

Sem alegria sem propósito sem sorte

Só se arrasta pela imensidão da montanha

Como se em movimento perpétuo evitasse a morte

 

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