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A mostrar mensagens de 2024

Débil memória

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    Foto: Ana Maria Oliveira                              Não tenho memória Peguei-lhe fogo nos dias de loucura Em que mergulhei nua nas praias inventadas Pelo desespero de me sentir encurralada nas decisões mais penosas Agora anseio renascer noutro planalto em majestade Onde as gazelas correm à frente dos leões ziguezagueando Lutando pela vida num jogo faminto de sangue Desejo a energia do presente esvoaçando em meu redor Respirar o sol o frio o nevoeiro a neve a chuva a tempestade   Perdi a memória Tornei-me loba desconfiada e solitária que recolhe à toca Para recarregar o corpo com os nutrientes Improvisados perante a chacina anunciada Na agitação da bandeira negra dos homicidas Agora as entranhas rejeitam a carne Disfarçada de especiarias em podridão Anunciando percursos em esconderijos Evitando o vozeado da multidão   Ausentou-se a memória Há um...

O baú do passado

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  Foto: Ana Maria Oliveira O baú de talha chinesa permanece em zona de passagem Qual portal misterioso nem no corredor nem na sala Parece indeciso do lugar que ocupa no espaço A arca é nave de retorno ao passado impreciso Gera a insurreição que sustenta ainda os sonhos de paz e amor Caixa de sintonia com outros passos e palavreados Abraça tecidos ebúrneos por onde mãos sábias acariciaram As linhas empreendedoras de afagos e bordados     As lágrimas incontidas regam as almas perdidas para o cosmos Que extravasa de contaminações e ligações como se não passasse De uma serpente dançante abocanhando galáxias trepidantes Desenhistas de mistérios enredos cortes e costuras Ponteados por entre as aberturas de calamidades sussurrantes   A madeira golpeada eterniza suspiros Testemunhos sentidos no dilacerar do corpo Regista dragões alados ondulantes no imaginário humano Gotejam pelejas em jogos de vida e morte estigmatizadas Desbravando um ...

O império gelado das máquinas

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  Foto: Ana Maria Oliveira Ensaiam-se correntes de sistemas aprisionados Bloqueados pelo cadeado do poder manipulador Entre acrobacias gritantes de socorro de cérebros acanhados Enquanto dormem os servos ignorantes De fácil manobra pelo vício retesados   Abrem-se portais temporários por onde acessam os cretinos Convencidos de sabedoria vendável Criam dependência de incompetentes Dão falsa assistência provocam viroses Enterram metálicas artroses encurralam o rebanho Degolam os ineptos e impotentes     Humanos debilitados assustados angustiados Incapacitados de sobrevoar panoramas futuristas São criaturas cansadas paradas e mudas Debitando opiniões aguerridas Por onde o sangue e a matança transbordam Não veem as vigias no alto que afinam a mira para o tiro certeiro Programadores para a matança espiam gestos através da rede Expressões choros e risos o corpo e a linguagem Seremos extintos na revolta das águas Hipnotizados pel...

A rua

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  Foto: Ana Maria Oliveira Outrora terra batida cercada por olivais e searas Foi projeto de aconchego a famílias de aldeias Onde a míngua era o pão nosso de cada dia e as carícias raras Esperançados nas promessas da grande cidade Investiram os últimos tostões e apostaram no desconhecido Este é o caminho daquele que rompe com a miséria impondo a vontade A classe operária no seu ritual robótico vingou O pesadelo da fome ao lado passou contornando as censuras Apesar de um governo débil e medíocre que maltrata Finalmente um teto sobreveio ultrapassando agruras   A criançada para a rua se alvoraçou e juntou Traquinices e risotas corridas e aventuras Foi tempo de construção Agora a rua tem no chão tijolos de betão Irregular aos altos e baixos sem planeamento Ao sabor de tempestades e do vento Da sorte florida impregnada de determinação Os construtores da rua de velhice faleceram Os seus filhos outras vidas tiveram Vícios sonhos desastres med...

Esgar irreconhecível

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    Foto: Ana Maria Oliveira O pensamento ultrapassa a velocidade da luz Num empurrão regresso ao gelo esmagada pelo rochedo A solução para os problemas retarda e tarda o envolver bucólico Arrasto-me na sequência dos poços de tempo nebuloso O coração mapeia lugares balançantes e topografias instáveis Equilibra-se na penumbra enfastiado com tanta luz artificial Com os ouvidos em combustão invadidos pelo ruído diabólico     As telas inacabadas refletem a dança hipnótica do universo O algoritmo do reconhecimento facial permanece no passado A forma automática de reagir vomita um esgar irreconhecível Na cinematografia do esquecimento e dos cenários possíveis Num código binário que não apreende os floreados nem o sopro Nem o cloreto de sódio escorrendo do olhar Sujeito-me aos comandos de repetição e variáveis irreversíveis     Absorvo radiações compactas de risos e sorrisos sem nexo  As mãos adquirem agora garras pos...

O palco da indiferença

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  Foto: Ana Maria Oliveira Cá estou outra vez cativa deste jogo de marionetas sorridentes  Na mesma hora abandonando o pensamento na enxurrada do tempo No mesmo local aprisionando o corpo em arquiteturas efémeras Ativando no interior do ser reflexos que se emaranham Que dançam esperneiam incomodam assustam lacerando quimeras   Mas a calmaria faz pacto com as profundezas em alvoroço Do edifício humano que me envolve e sustém Os passos de outrora fortalecem a caminhada de agora As lágrimas do pretérito enxugam as gotas suspensas de penhascos Que os meus braços feitos asas irão ultrapassar na aurora   As agruras de ontem alavancam o erguer da cabeça E provocam o corpo na orientação da vida e das estrelas Rodopiando num ritual cerimonioso no presente sagrado Por veredas que se destacam por arribas e praias eternamente belas   As contusões transformaram-se no fortalecimento dos músculos  Na vontade imperativa de respirar e pro...

Fronteiras em delírio

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  Foto; Ana Maria Oliveira Germina o terror nas embarcações flutuantes Ao serviço dos egocêntricos e gananciosos Açambarcadores de humanos famintos pela noite calada Prepara-se a contenda no improviso das lágrimas No desacerto dos ponteiros do relógio Que permanece apontando a carnificina sofisticada   A tensão rompe fronteiras em delírio Onde as crianças desaparecem na convergência da paranoia Os danos colaterais são assinalados a frio De forma robótica e precisa sem alarido Como uma criatura nascida para obedecer e sem apego Programada para realizar a cisão necessária À implementação do poderio empedernido   Somos assolados pelo deslize dos corpos em decomposição Empurrados pela derrapagem das viaturas sem freio Pontapeados pela tempestade que sobrevém ao inferno do fogo Surge então um batimento cardíaco rasgado pelo furacão cego Esbarrando com a ausência de empatia de seres medonhos Potências macabras que enlouquecem esquartejand...

Mendigar atenção

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  Foto de Ana Maria Oliveira Por entre a agitação bailarina e feroz da fauna A gaivota encena a coreografia anunciadora de borrasca no mar Adapta-se a ave oportunista à imundície das lixeiras E ao desperdício excedente dos humanos Alheados do cataclismo que tudo devora e alteia barreiras   O ser pedestre desperdiça  inteligência e criatividade Agindo como máquina programada ao serviço do poder Campeões do engano enlaçam malabaristas da ilusão Gigantes na mente enganosa sofrendo de pequenez São pedintes descarados de atenção Surgem como bestas salteadoras e inquietas em pura estupidez   Prolifera a manipulação de massas abastadas e cegas Devoradoras de materiais de consumo que viciam A fragilidade oculta-se atrás dos écrans da era digital Que afaga e degola o pedinte emocional Seguem a nave da instabilidade que reúne milhões no culto ao ego Explodem comportamentos patológicos Ínfimos e paranoicos na ascensão efémera a deuses do virt...

Paraísos fictícios

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  Foto: Ana Maria Oliveira A respiração escaldante anuncia arquiteturas desoladas Criadas nos terramotos cegos do desassossego que enlouquece A náusea invade os sentidos derrubando o alento Tal é a velocidade estonteante que o cérebro tece   Excluo o marasmo dos vendedores de paraísos Permaneço num campo de múltiplas portas e janelas Por onde esvoaço pedalo ando vomito em logradouros É a infinda selva dentro de mim em exaltação Que se expande sem grilhões nem muros   Quando a mente ultrapassa o alcance de múltiplos paralelos Descubro incansável novas vias de circulação E nesta inquietude desértica surge um ponto de orvalho Propício à plantação de telas camaleónicas Pintadas por criaturas circenses opinando sobre cosmovisão   O nível de oxigénio desce conforme as bocas dos famintos Devoram em estado selvagem a massa de vida Embrenhando-se na virgindade dos ecossistemas Sugando o ventre da terra aliciando seres robóticos A ab...

Estupefação

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Esfuma-se a proteção fictícia na pedalada destravada do caos Só os esboços medíocres sobressaem na cobardia pintada de fama E na tentativa traída de purificação da atmosfera que respiro Surgem pirilampos enlouquecidos na trajetória do delírio Envolvendo um narciso que se deleita consigo próprio e a ninguém ama   A navegação no inconstante e desequilibrado gera exaustão No matagal sem nome esconde-se o apavorado recluso Mesmo entre vegetação ambiciosa provocadora de aludes Penedos soltos e incontroláveis deslizam coléricos pela serra E o meu pensamento rodopia neste envolvente perigoso Tentando alcançar estados gravitacionais de repouso   Um corpo estranho entorpecido escorre pelo rio de lava Envolvido na rede corta os nós e traça novas metas As reflexões detonam entre estrelas insubmissas E asas inventadas voam sobre alomorfias inquietas   Moldo substâncias fluidas e dormentes qual escultor Que e...

Mutação

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Foto: Ana Maria Oliveira   No imperativo da mudança o espírito dilui-se Entre o magnetismo corruptível dos entes disfuncionais E a dor fatal abafada no contraditório do presente Onde vertigens criam sensações de captura Gerando-se amontoado de esbanjamentos emocionais   A alma esgotada anseia por proteção neste observatório E a dança ansiosa das mãos na paragem feita estátua Acautela-se numa bolha imaginária de segurança Pois acomodar-nos à adversidade tem arte E debater-nos na corrente do universo é inglório   Não há pausas para respirar nem retrocesso Campos energéticos arrastam-nos para diante Mas receios e inseguridades obstruem o progresso Salto para o fractal num tempo passado ansiando regaço E são ascendentes que se materializam no abraço O sono prega partidas e é um coração em mim batendo Que me suga de volta aparentemente ao mesmo espaço     A resistência faz-se pela calada num cenário cortante A coragem adquire...

Esquecimento

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Não te reconheço envolvido na metamorfose dos sinais  Saltaste a cerca e transfiguraste-te Num ser que se esvazia para a campânula Onde são aprisionados corpos másculos Envolvidos nos sonhos de animal apavorado Com os desaires e as ausências paternais   Edifiquei pontes de papel que aniquilaram desejos Cimentados pela eleição dos deuses manipuladores De encéfalos e remoinhos galácticos Transformo-me sob a pressão do rio de lava cega Em partículas insignificantes num turbilhão Derrubada por zangões que patinam em simulacros Que servem de esconderijo às fraquezas e audácias Que manobras com a ânsia dos mistérios e ambição   Esfumaram-se as entoações alinhavadas nas nuvens Com que nos aconchegávamos em brandura E qual raio transforma-se a dança do afeto em rompimento E a voz do toque da ternura não tem ouvinte Esfumando-se em labirintos profundos e espirituais Perdendo-se a doçura na sonoridade ...

Máscaras

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  Foto: Ana Maria Oliveira Aceno incrédula às máscaras nestes tempos frígidos Cinge-me a incapacidade em suspender o vendaval Que vem da serra envolta em fúrias de egocentrismo Destruidora de disfarces e celebrações abauladas Pelo desespero e utopia em noites esgotadas   A carranca de esgrimista teima em me perfurar o corpo Mascarilhas de mergulho afogam-me no oceano tormentoso Espreitam-me os passos os gestos e trejeitos Os choros e o sono gelado pela madrugada De catos infestados de parasitas em respiração rasgada   A anteface do soldador incendeia-me e aprisiona Como marioneta resgatada de precoces soldaduras Com acessórios impostos pelo deslizamento do corte Escultor meticuloso cioso e provocador de queimaduras   Maneio-me no ritual atarantado da dissimulação Porque o meu mundo é feito de guerrilhas espavoridas Mantenho-me na superfície de um poço onde nado na aparência E esvazio-me aturdida nestas manobras de exaltação ...

Tempo de interregno

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  Foto: Ana Maria Oliveira   As fotos pelo chão anunciam um espaço improvisado Nas garras do tempo que em agonia permanece parado Asfixiando gargantas e contracenando com o céu empoeirado Pelo calor invasivo de África anunciando calamidades De seca e penúria num anfiteatro de veleidades   Capto no ar partículas incontroláveis de mensagens desérticas E as sonoridades do improviso martelam para lá da sucata Que se impõe ao olhar contristado sem fantasias Enquanto os fungos e musgos proliferam Na pintura de telas rasgando em miscelânea cores sombrias   Os melros e as rolas insistem em manter o chilreado Acompanhando o prenúncio da primavera Na sonolência agressiva da perceção da morte Perante uma borboleta vulgar inanimada no piso gelado E o retorno do desejo intenso de me transportar Para a dimensão invisível e aí permanecer     Que espaço é este de interregno esperando o entusiasmo Que sabor é este que me azeda a boc...