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Desprendimento

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      A indiferença surge sombria No distanciamento encoberto pelo cansaço Agora os passos soam em direção oposta ao meu ser A respiração tem outros sonhos Manuseados pelo egoísmo de grandeza Soberba feita de flores murchas Vingança camuflada com cheiro a giestas Com odor doce que desmaia pela casa Que não me pertence de corpo e alma Apenas um frio que me invade através de invisíveis frestas     Este enredo cresce como o amplexo da anaconda Aperta até que o sufoco venha Até que os ossos estalejem sem dó Comunicar com o outro que sofre de surdez sem empatia  Apenas uma energia de afastamento que paira no pó   Remigrei para o palco da tragédia O gelo persiste e as palavras São sempre sinónimo de aborrecimento Desrespeito desprezo indignidade Mas há um plano de evasão Desta vez será ao encontro de mim própria O sol e o vento fazem parte de mim A água do mar purifica o meu ser A mata acalenta segredos...

Ausência

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    Borbulham portais de luz e movimento Na casa que foi lar na eternidade das galáxias Sons que sustentam um passado Vibrações que fixam à terra o abraço das árvores Colhendo os figos de mel sem contratempo   Agora transponho a sombra e o pó O chão levantado, as paredes esburacadas ruidosas Enferrujada e decrépita canalização Obras adiadas e dolorosas Um quintal feito de entulho Como um quadro pintado  Anunciador da morte e destruição   Saio e acelero pelas ruas estreitas De um bairro em que habitam fantasmas Outrora feito de brincadeiras e entusiasmos Na subida às oliveiras generosas Crianças dançando sob os ramos admirando sustentações Na gritaria agitada num salpico de ilusões   Hoje o tempo é impiedoso na prisão em forma de furna E num ápice entre inspirar e expirar Os órgãos cansados anseiam fechar-se sobre si mesmos Comunicam os espectros na vertigem pelo cosmos Mas assola-me sem controlo uma cris...

O desmoronar da vida

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  As bocas escancaradas de medo e espanto Assistem ao arrasar dos edifícios Enrolando os corpos na queda Abafando os gritos e gemidos Soterramentos incisões e estrangulamentos Enterrados vivos nos escombros em turbilhão Como se o ser humano estivesse condenado Pelo ritmo cardíaco da Terra em exaltação Erguendo um cenário de flagelo À espera da desgraça da armadilha em explosão   E depois os tentáculos negros Que nos advêm do planeta emaranhado Aumentam esta densidade pegajosa Que se agarra aos nossos membros Impedindo-nos de locomoção O planeta fervilha nas profundezas Quem sabe revoltado com o conflito armado   Em que corda bamba nos equilibramos Qual droga ingerida à força nos afasta da bonança Qual calamidade incontrolável, dependência do esterco Alheamento e miséria criam parasitas viciados na matança   E o mundo suspira entre os sepultados sob os destroços E o acontecer desvairado do negócio bélico É a loucura, o estado ...

A pegada dos gatos

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    Depois da seca, a chuva torrencial a inundar as casas e as ruas Agora o final de janeiro empurrou o frio Sobre este pequeno país de temperaturas amenas E os gatos marcam encontro no leito dos adultos Aninham-se no nosso abraço correspondendo às carícias   O sol entra a medo pelas janelas tristes e cansadas Permanece poucas horas abandonando estas paredes À humidade omnipresente e ao desconforto E eu impotente e desarmada de mão amarrada Deambulo sinistrada num ritual cortante escorregadio Piso inseguro entre leituras, escritos Seleciono imagens que abafam os gritos   Só a estrela mãe carinhosa  E a relva dedicada deste horto que me envolve Me segreda para serenar a minha alma Que contempla os reflexos do verde No banco de jardim de onde a euforia se ausentou A cintilação das cores trás com ela os anjos O chilreado dos pássaros anuncia gloriosos projetos O riso alegre e brincalhão das crianças     ...

Ausência do toque

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  Desabrocha a arquitetura adversa nas cidades do desconsolo Perante a agressão tácita que esconde a exclusão oculta Pesar que se entranha na teimosia de queimar o incenso Esfumando o espaço sobre o chá esquecido E a desidratação do corpo anunciando a queda Perante o definhamento da empatia à solta   Obscurecem os reflexos e atrofiam-se gaguejares Despedaçando afetos caídos no poço fétido do cinismo Agora surgem os maestros da brutalidade em dor maior Para um auditório ávido de repulsa e furor   Nas pegadas germinadas por detrás do teclado Permanecem vestígios de ofensas e perseguições A comunhão adquire estatuto de fraqueza e imbecilidade Num descarado sistema capitalista de opções insanas Que provoca sem pejo a quebra das ligações humanas   Nesta gestão quebradiça todos se promovem a si mesmos Num ritual ríspido e frustrado visto-me do avesso E na saída da pandemia enfrentando a guerra O ser humano abate-se no centro dos ví...

Ventos inquietos

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  Abraço insegura um tempo de ventos ansiosos Suspensos na indiferença das caligrafias trôpegas Troco alheada os dias fictícios e os lugares suspensos Como se interiormente inventasse uma maquinaria Que me teletransportasse para as ramificações do nada Enquanto o mundo desaba na clivagem bélica Num conflito sem sentido em rodopio Na promoção incessante do horror Há um folgo perto do fim que anuncia tempestades De intensidade lírica desmaiada Nos laivos de nevoeiro em meu redor   Sou diminuta flor selvagem numa invisível bolha de inocência Teimosa adornando de pé a beira do caminho Que ainda não foi calcada pela desenfreada manada de búfalos Que pisam e abalroam os terrenos áridos da existência   Depois do estio asfixiante provocador de secas violentas Descoloridas pela ausência desmaiada das fontes Os lagos beijados pelas chuvas trouxeram de novo O sangue às veias outrora decepadas pelos penhascos da decadência E o meu corpo perdi...

Estou por minha conta

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    Ergo-me em luta para lá do altar profanado Invento danças no meio da floresta Sou então o próprio bailado em transe Alço a tocha defendendo o fogo Então meu corpo é lava desenfreada Que dá o grito da vida em incandescente brasa   Mesmo num parto imperfeito de agonia Que se prolonga no rasto magnético do mar em fúria Vomito as entranhas para enfrentar o duro gelo No corte invasor do bisturi acelerado da cirurgia que perdura     Os genes são fluidos que se adaptam às marés Na construção de casulos onde renasço com asas Noutros ninhos suspensos na metamorfose dos matagais É lá que mora o espírito ondulante do bem-querer Mas o meu corpo quebradiço em final de escalada Só perspetiva a sonoridade tentacular Da monstruosidade à solta que tudo modela a frio Num planeta que quer urgentemente mudar   Germina a água revoltada nos chãos das casas Faço da insulação a força que controla a dor A poesia que concebo re...