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Fios de cobre

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  Pintura de: Ana Maria Oliveira A durabilidade do metal contrasta com a transitoriedade Das células biológicas e dos amores fictícios A resistência ao desgaste anuncia-me a coragem Conservando-me intangível no aprumo Sobrevivendo às neuropatias alheias   A flexibilidade permite o enrolamento dos fios Como a minha respiração sopra as mágoas Em direções longínquas emudecendo os cânticos De braços e abraços gélidos onde a empatia se esfumou Perante a crueza dos arrombamentos de espaços cálidos   Maleável no compasso do ritual dos planetas Os dedos enrolam o fio convidando-o a entrar noutras estruturas Mas o metal é rebelde e recusa a submissão Então transforma-se o fio de cobre em arlequim Forjando lâminas e bastões entrelaçando o caos   Manobrável e engenhoso sujeita-se ao corte E ao desdobramento que conduz energias em ebulição Então dócil desmaia com a minha loucura Enroscando-se criativamente tal como a alma que me anima ...

Veneno

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  Foto: Ana Maria Oliveira Defeca o ditador nas costas do escravo Evacua o reptil arquitetando a matança Cuspe o sabujo convencido que é gente Degolam-se os algozes transformando o ódio em herança   O lacrau expele o veneno ensaiando a dança O imperador ostraciza convencendo-se que é um deus Escarra sobre a flor que ilumina o caminho Expulsa os mendigos para o submundo embelezando a superfície Executa crucificações aplaudindo divertido com trajes de arminho   A vomição ambiciona despachar a dor que se agarra ao coração Expele mensagens de adeus chutando antipatias patológicas Abraça movimentos espasmódicos que anunciam a partida De energias sobreviventes a piruetas morfológicas Num teatro de faz de conta onde se mutila quem oferece afagos Soltando-se ansiosa das correntes antropofágicas   Despeja-se na valeta a dedicação e empenho Afasta-se o ser escorraçado e mal-amado em êxodo Relega-se de forma indiferente e egoísta Pr...

Canibalismo galáctico

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Sinto que percorro uma garganta apertada que me estrangula A pequenez que me assiste não impede a deglutição do colossal Fragmento-me dentro do processo de digestão lenta Debato-me procurando salvaguardar-me na distância Protegendo o corpo e alma do predador evitando ser devorada   O gigante ignora a sua brutalidade E a capacidade de distorcer o outro Suga-lhe as entranhas Derruba-lhe a personalidade Castra-lhe a criatividade Silencia-lhe o grito Dá-lhe a bofetada final Regurgitando o ego Festejando a provocação da perda de identidade   Sobrevoando outros espaços evitando a colisão Pairo sobre o buraco negro a distância segura Pois a gravidade envolve-me e prende-me na rota de impacto Não querendo tornar-me matéria amorfa opto pela cisão Em campo movediço de fungos invisíveis que sustentam abrasões Perante a inércia do bando fujo do cadafalso Onde germinam atentados à dignidade cobertos de c...

Hibernação

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  Foto: Ana Maria Oliveira Há um corpo que me acompanha na projeção dos soluços Se enrosca nos dedos ansiosos de vida crepitante Percorrendo inquieto os compartimentos da casa Uma sensação enganadora de calor ao som da música dançante Como pássaro absorto e encurralado a quem falta uma asa   O letargo busca a quentura de um velho cobertor A modorra provoca a hipnose dos mundos paralelos Na iminência hibernal em carência de sustento Enfrentando o envolvente adverso e espinhoso Intervalando o despertar em pranto e abatimento O frio de novembro congela as mãos acariciadoras de visões A temperatura interna abrevia o desejo das torrentes E quebra a pulsação desenhada num quadro romântico do pôr do sol A míngua da pressão arterial prepara o ocaso em alheamento Quando a decrescença do metabolismo acende por dentro um farol

O chão alagado das memórias

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A chuva mergulha no chão alagado das memórias Persistentes na concretização de janelas virtuais E o arrumo provisório dos pátios transformado em bálsamo Cria salpicos de forja diretos ao coração Desarmado perante o vazio construído no tálamo   Na anulação asfixiante e vertiginosa dos sentidos Agarro os terramotos que me conduzem aos latidos dos cães Às galerias subterrâneas das minhocas À sucata desorganizada dos quintais Improvisados nos cornos gelados da necessidade Às artroses ocultas no delírio dos sonhos inalcançáveis Às unhas quebradiças do desleixo Abraço apenas o indiferente eremita desligado da sociedade Infetada pelo ódio e separação em adiamento do beijo   Restam os alfinetes que sustêm os cortinados carunchosos Adiando as limpezas bordadas de entusiasmo O pânico abafa-se na sobreposição das pinturas Desregradas pela revolta persistente sem alegria Do ser vivo aguardando a passagem ao p...

A nudez do desencanto

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  Foto: Ana Maria Oliveira A autoilusão extravasa no prato vazio do amor A vitalidade deambula pela noite cega Regressa ao refúgio o bando de rolas Sobrevoa com avidez o galinheiro improvisado Decompondo fictícias e sobrepostas posturas   Os girassóis deixam-se comer pelos vermes Que trocam a volta ao tempo e sobem até às folhas Esburacadas lentamente pela fome Acasalam vegetal e animal na face inexpressiva da paralisia Perante a automatização dos gestos de indiferença das pessoas   Os catos persistem em não dar flor No encadeamento da tempestade Devoradora dos órgãos de sobrevivência Deixando os oxímetros avariados Perante arritmias desfeitas em abstinência

Famintas palavras

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  Foto: Ana Maria Oliveira As palavras devoraram-me os ossos Inverteram o propósito em trajetos adulterinos E conduziram os passos ao cruzamento da incerteza Ao cântico efémero dos pássaros Ao trajeto asmático dos felinos   Enlaçando agora frequências de clarividência Não há pressa na manipulação das cores até de madrugada Aconchego-me na criatividade do imperativo presente Que esqueceu as perspetivas tacanhas da sintática E avanço para sonoridades provocadoras De mandalas em delírio bailador Abandono as tintas sobre a velha tela enfadonha De uma cegueira programadora e tóxica Em ritmo caótico trémulo avassalador   Destruo a pintura varrendo pinceladas à toa E liberto-as para entrarem no jogo lúdico Do sol e da areia do rio e da veia Do vento e da poeira da montanha e planalto Do fogo e da cinza do sol e da lava Que sejam os elementos a criarem o asfalto   Alívio é a nave que me transporta de novo ao porto Que me acarin...