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A pegada dos gatos

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    Depois da seca, a chuva torrencial a inundar as casas e as ruas Agora o final de janeiro empurrou o frio Sobre este pequeno país de temperaturas amenas E os gatos marcam encontro no leito dos adultos Aninham-se no nosso abraço correspondendo às carícias   O sol entra a medo pelas janelas tristes e cansadas Permanece poucas horas abandonando estas paredes À humidade omnipresente e ao desconforto E eu impotente e desarmada de mão amarrada Deambulo sinistrada num ritual cortante escorregadio Piso inseguro entre leituras, escritos Seleciono imagens que abafam os gritos   Só a estrela mãe carinhosa  E a relva dedicada deste horto que me envolve Me segreda para serenar a minha alma Que contempla os reflexos do verde No banco de jardim de onde a euforia se ausentou A cintilação das cores trás com ela os anjos O chilreado dos pássaros anuncia gloriosos projetos O riso alegre e brincalhão das crianças     ...

Ausência do toque

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  Desabrocha a arquitetura adversa nas cidades do desconsolo Perante a agressão tácita que esconde a exclusão oculta Pesar que se entranha na teimosia de queimar o incenso Esfumando o espaço sobre o chá esquecido E a desidratação do corpo anunciando a queda Perante o definhamento da empatia à solta   Obscurecem os reflexos e atrofiam-se gaguejares Despedaçando afetos caídos no poço fétido do cinismo Agora surgem os maestros da brutalidade em dor maior Para um auditório ávido de repulsa e furor   Nas pegadas germinadas por detrás do teclado Permanecem vestígios de ofensas e perseguições A comunhão adquire estatuto de fraqueza e imbecilidade Num descarado sistema capitalista de opções insanas Que provoca sem pejo a quebra das ligações humanas   Nesta gestão quebradiça todos se promovem a si mesmos Num ritual ríspido e frustrado visto-me do avesso E na saída da pandemia enfrentando a guerra O ser humano abate-se no centro dos ví...

Ventos inquietos

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  Abraço insegura um tempo de ventos ansiosos Suspensos na indiferença das caligrafias trôpegas Troco alheada os dias fictícios e os lugares suspensos Como se interiormente inventasse uma maquinaria Que me teletransportasse para as ramificações do nada Enquanto o mundo desaba na clivagem bélica Num conflito sem sentido em rodopio Na promoção incessante do horror Há um folgo perto do fim que anuncia tempestades De intensidade lírica desmaiada Nos laivos de nevoeiro em meu redor   Sou diminuta flor selvagem numa invisível bolha de inocência Teimosa adornando de pé a beira do caminho Que ainda não foi calcada pela desenfreada manada de búfalos Que pisam e abalroam os terrenos áridos da existência   Depois do estio asfixiante provocador de secas violentas Descoloridas pela ausência desmaiada das fontes Os lagos beijados pelas chuvas trouxeram de novo O sangue às veias outrora decepadas pelos penhascos da decadência E o meu corpo perdi...

Estou por minha conta

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    Ergo-me em luta para lá do altar profanado Invento danças no meio da floresta Sou então o próprio bailado em transe Alço a tocha defendendo o fogo Então meu corpo é lava desenfreada Que dá o grito da vida em incandescente brasa   Mesmo num parto imperfeito de agonia Que se prolonga no rasto magnético do mar em fúria Vomito as entranhas para enfrentar o duro gelo No corte invasor do bisturi acelerado da cirurgia que perdura     Os genes são fluidos que se adaptam às marés Na construção de casulos onde renasço com asas Noutros ninhos suspensos na metamorfose dos matagais É lá que mora o espírito ondulante do bem-querer Mas o meu corpo quebradiço em final de escalada Só perspetiva a sonoridade tentacular Da monstruosidade à solta que tudo modela a frio Num planeta que quer urgentemente mudar   Germina a água revoltada nos chãos das casas Faço da insulação a força que controla a dor A poesia que concebo re...

Cortes na pele

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  Enquanto o frio se entranha nos ossos A mão engessada aguarda a libertação do afogo E as paredes criam rios de gotículas como lágrimas que desmaiam Aceitando impassíveis o martelo deixando-se esburacar Pelo parceiro implacável do tempo Que pela força contorce os canos de alimentação E o que foi no passado um ninho de luzência Passa a ruínas que se perpetuam na eternidade Numa espera paciente de retorno ao aconchego e amenidade   Só o pastor-alemão me olha em interrogação Senta-se a meu lado fixando-me em pacata interrogação E a sua companhia não impede uma corrente de ar Apressando a pintura na tela que me trava as mãos em dor E no contratempo de desânimo Os rabiscos saem grotescos semelhantes à minha alma Que em solitude já não canta melodias de amor   Foram tantos os cortes na pele Foram tantas as amarguras que se colaram aos meus órgãos Que o suposto sinistro se tornou alívio Premeia-me com uma cronologia de percurso pela...

Sociedade gelada

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  Saltarilhamos de plataforma em plataforma E neste passo de dança cada um cuida de si Espezinhando os outros de forma vil Mesmo quando apenas rola na mesa da inquisição A fruta apodrecida da indiferença pueril   As mercancias progridem no rastilho fugaz das paixões   Dos descarnados fios condutores das redes sociais E surgem animados no campo virtual Os pantomineiros mascarados do gestual   Os coléricos com a vida Abandonados impotentes à sua sorte Ocorre-lhes o suicídio fazendo pacto com a morte Os clãs abundam em cada canto do ecrã Apresentam-se simpáticos amáveis Como quem atrai as moscas com mel Baloiçam os constrangedores empurrando os alienáveis   Transportam as tribos a bandeira diabólica Neutra e cinzenta de quem mata ou morre E na subtileza do deboche apregoam - Venham meus senhores! Não se acanhem Em boa hora vos sai a sorte grande Pois os opositores dormem e relaxam Sejam cobiçosos neste estrado que...

A época dos rebanhos

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    Os corações famintos estagnam na carência de afeto Multidões de negligenciados furam esquemas de sobrevivência Açambarcados pelo sentimento de desconexão Num mundo apavorado pelos enforcados Galvanizado pela riqueza dos desenvergonhados Perante a fracturação entre néscios verdugos e degolados   Os desprevenidos e pacóvios Rebolam-se nas danças das informações falsas Sacode-se o tapete da pobreza real Sobre o horror do desemprego e apartamento Solta-se no ar contaminado a suspeita E num tango trôpego entra-se em isolamento social   A escola progride na arte do espetáculo político Feito de enganos e discursos falaciosos Que matreiros vão saciando a fome de pertença dos trôpegos Apaziguando o povo infundindo a busca do propósito Mesmo incitando o risco da exclusão dos outros E o perigo do rebanho tresmalhado Sucede-se pela astúcia da matilha Que não quer saber da sustentação do amanhã Mas que esgaravata e desespera pel...