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Inverno

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  Foto: Ana Maria Oliveira Este tempo de alheamento paralisa A fraca respiração sem visionamento Esperando o murmúrio dos ribeiros Combater a doença com um sorriso no rosto Descansar no final da praia Depois da caminhada pelo areal Evitar pisar as anémonas à beira-mar desmaiadas Saltar para dentro de um filme no refúgio entre paredes Adiar as escolhas olhando as unhas quebradas   A gata siamesa mira-me paciente Como se aguardasse um sinal de atenção Estes felinos adivinham o sofrimento Observam-nos os esgares vigiam-nos os gestos Enroscam-se em nós, como se ansiassem ajudar-nos    Assiste curiosa às minhas tentativas Do ritual simples de vestir e calçar Conseguir a rotina de tomar um banho glorioso Com a mão esquerda incapacitada o exercício é lento Torna-se um empreendimento penoso   Crepita a repetição dolorosa de outras eras Quantas guerras bramidos e dias aflitos Na ânsia de navegar em rios mansos Sem jogos p...

Estrada serpenteada

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  Foto: Ana Maria Oliveira Afluem musgos na superfície húmida das pedras  Nas sombras dos fetos descansam centopeias no seu território Flores parasitárias de cores garridas atraem o olhar dos caminhantes Perante os bichos que debandaram para fora do caudal seco do rio   Permanece um fraco som de água em queda Caindo no poço profundo entre montes abruptos Armadilha para velocistas sob a coroa da bravura  Transpondo as dobras do caminho acanhado Num voo de cenário pintado em tons de tragédia   A estranheza sobrevém da sonoridade da terra Quando a cadência de um povo fatigado Repete musicalidades centenárias Esperando a delicadeza da divisão das águas Com orgulho trabalho teimosia e sorte Nos socalcos instáveis de vida e morte   Espaço de dólmens anunciando a efemeridade  No olhar plácido de quem sabe Que está próximo do pórtico de abalada Dos tempos caídos nos desertos iminentes Dos poços secos agora contaminados Pelo ritual espezinhado dos voos  Áv...

O lagarto de água

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  Foto: Ana Maria Oliveira O reptil surge a meus pés por entre o verde das ervas Contíguas ao ribeiro murmurante que corre pela represa serena Aguardando o chapinhar das crianças em pleno estio Pois agora ninguém pisa nem agita aquele solo sagrado Apenas o belo lagarto de cabeça azul traz a mensagem silenciosa Da robustez e perseverança sob o sol dúbio e sedutor da primavera    Procura na zona de penhascos adjacentes ao regato A fêmea que provocará o ritmo de acasalamento O reptil de cabeça azul perde-se hirto no meu olhar Atraído por zonas húmidas invadindo sombreados Na estação de reprodução que está prestes a chegar     Nesta gloriosa época soalheira larga o torpor invernoso Aparece com firmeza na linha de água à minha frente em pleno dia Confia inteligente na aptidão do escape por entre a pacífica aragem Procura o sol sem preocupação pelas aves de rapina esfomeadas Transmite paciência e confiança na sua própria camuflagem ...

Conflito

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  Foto: Ana Maria Oliveira Zumbem os projéteis sob os céus cinzentos em ritmo pesponto Explodem edifícios onde crianças se abrigam Obscurece a ética no jogo manipulatório das armas Financiando-se arsenais no prolongamento do confronto   Na espécie humana germina a genética atravessando os tempos Do batalhador pelo território no apontar do canhão Do agressivo tendo prazer pela discórdia Do animoso pelo prazer da conflagração   Criatura aguerrida elemento de esquadra Personagem de contenda num filme de violência Celebridade beligerante de disputa amarfanhada Soltando a peleja embriagada da decadência   O desentendimento aumenta o número de mavórcios Que alcançam estatutos de heróis em pântanos de hostilidades Desavenças são estrados diabólicos para outras disputas Afundam-se ancoradouros soprando furacões de inimizades   A divergência cria armígeros aplaudindo ditadores Adicionam táticas despóticas assinando tratados obscu...

O golpe baixo da indiferença

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  Foto: Ana Maria Oliveira A rutura entre novo e velho faz silenciar os sábios Aguardando as maleitas da distração dos humanoides Invadidos pelos estrondos das disfunções raquíticas Perante a impassibilidade dos invertebrados   Animálculos sem projetos nem vontade Abrem os portais ferrugentos da violência Expelem larvas contaminadas pelo medo Nutrem parasitas enfeitados passando despercebidos E têm na respiração planetária negativa influência   Transpõe-se o realismo ingénuo para o quotidiano da imbecilidade Aterrando na pista da volubilidade transitória Dos sentimentos humanos fracos e ilusórios Brota em campo de aranhiços um emaranhado de distúrbios Crispa-se a articulação frágil de tempo e espaço Contra a emancipação mental erguem-se espectros predatórios   É imperativa a reparação do desapontamento Quando o golpe baixo da indiferença Corrói a confiança do inocente E planeia secamente a perfídia pela desavença   E...

Nada é definitivo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Matérias esbatem-se nas essências atuando em tripé instável Adquirindo formas e colorações texturas e podridões Sustentáculos de predicados que se imutam Construindo e desterrando geografias traçando multidões   Encarcerado permanece o animismo onde nada é definitivo Nascente inesgotável de movimentação dos vermes Copiado do código genético da criação obtusa Obtendo conceitos presos em estendais de vento Surgindo a alma informe rompendo dimensões de assolação Na lentidão da marcha de cada elemento   Neste imagismo vacilando a erudição Perfuram-se sensações visuais saltando para o tato Apalpando a rugosidade das montanhas em desabamento Saboreando o fel em afogamentos de acidez egocêntrica Incapaz de ultrapassar trincheiras epistemológicas Secam esqueletos ao sol escaldante do deserto Corrompem-se tecidos de memórias nas fossas antropofágicas   Pedagogias soltas minam cérebros subjugados por...

Ciclo vital

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    Foto:Ana Maria Oliveira A energia sustenta campos de harmonia temporária Nos ecossistemas das bocas abertas suplicando alimento Perante psicoses manipuladoras de rebanhos Casadas com transtornos afetivos sem consciência nem alento   Desmaiam nuvens ácidas contaminando a flora A clorofila capta a luz no processo de fotossíntese E o frenesi contorcionista instigador sem desígnio Esconde as pegadas de patologias nevrológicas Nos bastidores gozam os decompositores fungos e bactérias Transvertem o orgânico morto por declínio Em matéria inorgânica como fruto de matrimónio luciferino E entre pactos e laços dependências e atritos Solta-se a indiferença azeda das entidades do extermínio   Paira um efeito cumulativo como bomba relógio Quando os inseticidas e compostos radioativos Se concentram no homem parasita central E a bipolaridade desencanta filamentos de delírios e paranoias Esquecendo o ritual do crepitante ciclo vital ...