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Jejum

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    Foto: Ana Maria Oliveira A privação abraça-me na delicadeza das sonoridades Que arrebatam para uma estratosfera de sonhos É companheira de estrada e da subtileza dolorida Provocada pelo entupimento dos canais De acesso a outros patamares deslizantes Por colinas em desequilíbrio dividida   Chocalham os ossos dos defuntos revoltados Pela esquizofrenia dos aliados do caos em velocidade Saltando furiosamente de palco em palco Batendo os pés sobre andaimes em  instabilidade   A complexidade das arquiteturas em carne Escondem autoestradas de trocas atómicas Negociando a falência dos órgãos delineadores De arranha-céus à beira da fragmentação pela força amoral Dos elementos em envolvimentos frenéticos castradores   Enquanto a compatibilidade das almas espera O alinhamento na direção do alvo furtivo em  fluxibili dade O cruzamento gera oportunidades quânticas De criação de galáxias multicolores na imprevisibili...

Luzes néon

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  Foto: Ana Maria Oliveira     Um ruído ensurdecedor metralha os ouvidos Seres díspares deambulam hipnotizados pelo tesouro Diante de jogos exploradores de fantasias Que enriquecem uma indústria ávida de ouro   Crianças gritam de entusiasmo perante a oferta deliciosa  São outros sonhos outros quereres E um choro convulsivo assombrado pela deceção Prolonga o tempo de sofrimento Permanece à entrada do recinto de euforias De baloiços rotativos de fúria e loucura Um colchão onde saltos e saltos Criam sensações de controlo e voo em doçura   A mãe arrasta o rapazinho pequeno pelo braço Para fora daquele lugar estonteante de diversão Provocador de epilepsia em aguda carência Progenitora e filho estão tristes frustrados infelizes E desaparecem rapidamente por entre a multidão    Um pai incentiva o filho a atirar-se sobre a caixa das bolas A subir aos escorregas e adquirir a velocidade dos sonhos  O pai ...

A inquietude da tela

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Os odores da madeira antiga impregnam fluídos Que são absorvidos pelos objetos deixando mensagens Pelas paredes testemunhas de visões do passado Os armários acolhem ainda sopros na distância das vozes As gavetas agrupam artesanato concebido na calma das horas Ao compasso de agulhas mestras o utrora num bailado de mãos Para num amplexo se unirem à teia organizada A entrelaçar tangos corridos de nós criando pontos no ar Na singeleza e destreza branca pura amada   Visualizo a presença da tela e as rendas do passado Que outrora serviam de móbil na criação dos dias Uno-as numa miscelânea como se cada pigmento de tinta Entrasse em dupla sinfonia com os fios que por mãos mágicas Se transformariam em toalhas de mesa naperons e lençóis de linho Num tempo arcaico com cem anos de labuta E o solucionar problemas de sobrevivência sobre o ninho   Sei que o exercício é de catarse De constelações familiares à der...

Carga pesada

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Adormecer sob a lua cria mundos Que trazem com eles mensagens de força Porque embora embarque num voo de calmaria Os membros alertam para uma vigília de assombração Pois que nada sobre a Terra é o que parece Não importa se permaneço numa bolha de proteção     Carrego dentro de mim ciclos de pobreza   Cinzentos castelos de nobreza   Malfadados afogamentos nos rios mais longos   Soterramentos de agonia no frio húmido Avalanche de lama gelada na construção de pontes Que servem agora de cenários macabros aos suicídios Emergentes neste tempo de loucos onde secaram as fontes   Trago comigo o veneno bebido na amargura De um campo infértil onde os humanos debandaram Por conta e risco sem espaço para crescer Com tanta morte à solta e viúvas abandonadas Enfrentando a solidão com um filho acabado de nascer   Acalento em mim os bastardos Que reivindicam a presença de um pai Pris...

O esbatimento das cores

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Serão os meus olhos que se turvam de lágrimas invisíveis E me impedem de contemplar As variantes cromáticas do arco-íris em movimento Ou é o exterior que se modifica na estranheza dos desencontros De gente apressada em construir o seu próprio encarceramento   Entro no templo que me levará para a zona de conforto  Há um zumbido a metralhar nos ouvidos Baralham-se as nuvens mesclando a capacidade de sonhar Subo escadas com a respiração apressada  Mas já não corro com a pressa de chegar   Constato a distância que me separa dos outros Não há entusiasmo em mim nem vontade nem trauma Para criar artifícios que não me pertencem  Sentir unicamente o silêncio apaziguando corpo e alma   Inevitavelmente é para lá que me dirijo Um lugar onde não haja nem calor nem frio  Para que deixe de sentir a premência de fugir do alarido E dos problemas que não são meus neste sufocante estio ...

Vibração flutuante

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A vibração agita as sinapses provocadoras de sensações Na ligeireza vertiginosa da impermanência  Ignoro a náusea da oscilação ondulante do corpo Aguardando impaciente a incisão profunda do silêncio  Que me prende ao chão tapete rebelde sob os pés  Onde madeira metal e terra criam paladares De calorias extintoras de vontades sentinelas Provocando frequências invisíveis que transportam Os devaneios para dimensões paralelas   Germina em perfeita armadilha um enfraquecer da energia Devido às forças de resistência e atrito num impulsor desligado Será apenas um turbilhão de asas sem quebra nem corte Um amortecimento esquecido entre corredores labirínticos Planando na infinitude inalcançável sem gritos nem morte   Estou e não permaneço apenas aguardo o vómito Na inquietude divinatória de uma existência em ignorância Caminho e não me movo na aparente contradição Inconformada com a ...

Marés salgadas

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  Foto: Ana Maria Oliveira As marés serenas atenuam as trepidações dolorosas sob o peso Do glaciar à deriva dentro dum cenário apocalíptico A espuma dançarina beija a fragilidade dos músculos Quando desliza pelas rochas em tons de verde como aguarelas Explodindo em laivos de esperança aguardando a abertura De portais sincronizados no tempo feiticeiro das estrelas   Agora os passos reconquistam o sal da vida A latejar na flutuação em águas transparentes Contemplando o céu de nuvens brancas Segredando esconderijos como refúgios de sonhos privados Vislumbrando os cardumes de peixes que se movimentam Contíguos ao meu olhar ansiando a miscigenação dos estados   Agosto que me envolves com a força da coragem Com a energia da confiança e determinação De prosseguir depois da tempestade em dura madrugada Liberto-me do pântano que forçosamente tive de atravessar Ouvindo os sussurros do meu corpo orientando-me na jornada   Fiz da solitud...

Murcham as rosas

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Ramos de espinhos secam ao sol sem vida Como se braços fossem cortados retirando-lhes o alimento Porque o calor molda outro mundo que derrotado enlouquece Enquanto raízes lutam por água esquecendo o inverno agitado E a canícula mata outros seres e as folhas amarelece   A gata vadia atenta no telhado do galinheiro Observa o trajeto dos voadores serenando no poiso Castelo eterno da galinha princesa Pois há um espaço permissivamente partilhado Com as rolas, os pombos e os melros na natureza   A osga de barriga cheia esconde-se no aglomerado caótico Na desarrumação dos elementos que permanecem suspensos Dependentes de uma vontade adiada Enquanto o astro rei se ergue e esconde da Terra soberana Indiferente aos sonhos programados Tatuados algures no interior da alma humana   Murcham as rosas nesta atmosfera de mudanças Onde a cor da luz  se modificou E a quentura outrora aconchegante é já si...

Hospício mundial

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  Foto: Ana Maria Oliveira Não sabemos o que fazer com os choros e os gritos Afundamo-nos impotentes na pobreza emocional E cometem-se transgressões no deslize da incoerência O descontrolo prolifera a cada corrida de estrada Enfraquecidos e pulverizados pelas borrascas da existência   Somos assolados pela penúria do desassossego Pelo alvoroço sugador de energia sem freio das ilusões Pela perturbação que nos desintegra a alma Pelo dispêndio cego das imprevistas emoções   Agora temos computadores que comunicam connosco Adivinham os desejos escondidos de forma charmosa Vasculham as fragilidades mais recônditas Apresentam-nos a carta de gastronomia mais deleitosa   Dialogamos com máquinas e em segundos Há sempre respostas prontas que em regalo nos confortam Mas de quantas ratoeiras invisíveis temos de fugir a correr Quantos caminhos ainda temos que ultrapassar Com quantas prisões ainda precisamos de romper

Sinfonia do distanciamento

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A obsessão traja lantejoulas de festas artificiais Provocando a fragilidade para que se erga das ruínas da fornalha A privação oculta mistérios de alucinações periclitantes Induzindo a premissa que corta o raciocínio em mortalha   Há sempre um elemento culpado pelo desamparo Mas os sonhos arquitetados na falência do real Provocam a loucura da camuflada desilusão Na ausência imperturbável do vendedor de quimeras Arrasando a memória dos dias paralisados pela procrastinação     Anuncia-se o alagamento dos cérebros escaldados pelo sol Espera-se a destruidora avalanche que desintegra civilizações Sem ética de suporte a um bem maior Aguarda-se a invasão dos químicos moldando criaturas Na falta de autenticação das sementes Que perfazem quadros vazios sem molduras     Percorre-se um trilho contaminado na pluralidade da invenção Asas são queimadas pelo fogo querendo planar Mas desencadeiam a...

Claustrofobia

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A claustrofobia assolou sem avisar Integralmente os medos em conflito Com a ressonância magnética Perante o tubo que veda a mirada Para paisagens mais movimentadas Quando o capacete veio em dança surpresa Enroscar-se sem permissão na cabeça Imposta por uma tecnologia fria que o desapego invoca Apenas acessório inevitável como máscara computorizada Que desleixa estados emocionais e sufoca   O gatilho da memória sintonizou a cama de hospital Recuou uma década e visualizou inconsciente A imobilidade forçada de duas longas semanas Onde os sedativos e paliativos se mesclaram em sintonia Confusos e pacientes aguardando A inevitabilidade cortante da cirurgia   A claustrofobia emergiu da reminiscência E imediatamente o sinal de alarme soou pioneiro no coração Alastrando o estado de ansiedade a cada batimento O capacete assemelha-se a um castigo de imobilização Uma mascarilha que tolda o discerniment...

Triângulo de carências

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                                                                  Foto: Ana Maria Oliveira   A gazela salta alegremente na passarela dos aplausos No escultural perfecionista alisando os altos e baixos Cortando tudo o que não encaixa na vaidade balofa Da beleza alucinada da mesmice da servidão Onde tudo se alinha no galgar de elegância Por entre aplausos de verdugos ávidos de adorações básicas Perfeito é o conceito a cintilar no espelho partido do narcisismo Onde o antílope sabe ser gracioso e vencedor de maratonas estéticas   O coelho cansado bem tenta colorir o céu Mas a desordem e a fragilidade destroem o floreado Que brota em seu redor facilmente manipulável E dentro da floresta negra tenta evitar o assalto Cambaleando em ziguezague desamparado inadaptável Inocentemente sonha alca...

Memórias do Alentejo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   As tarrafas ainda subsistem em caixa frágil No emaranhado das redes comprimidas pela linha de chumbos Aguardando a homenagem a rituais de sobrevivência Esperando o apontar da objetiva criadora de sonhos em alento Provocando a fotografia liberta mesmo em paragem incerta Do lançar sobre as águas mais promissor recolhendo alimento Construindo palcos para cinematografia eufórica Descobrindo enlevos de postura mais serena em memorandos Amando e admirando a feição mais insurreta Por entre esconderijos dispersos pela raia Germinadora de paixões ocultas e contrabandos   Os peixes desapareceram da prisão dos fios Permanecem agora nas lembranças remotas do Alentejo Os tresmalhos perderam-se nas cirroses ardentes Contaminadas pelos charcos que secaram algures Onde as cigarras encantadas rebentam em chiadeiras estridentes Perante o calor que aperta no estio em acasalamento cortante E os cágados refugiaram-se nas sombr...

O sufoco do casulo

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  Foto: Ana Maria Oliveira   Sacudo para longe a asfixia dos invólucros Perante a estranheza das roupagens Alivio a pressão do aperto dos tecidos alienígenas Na transpiração revoltada contra as fibras artificiais Provocando o afogamento pela plastificação das inconsciências   O desconforto acutilante do casulo escuro Erguido pelas amarras dos casacos de lama Cria avidez pelo corte inevitável das vestimentas Ambicionando a respiração da liberdade transitória da nudez Envolta em alegria meditativa da terra sob os pés Rasgando texturas que nos petrificam em estátuas Aliadas à ditadura desenfreada da estética compulsiva das esculturas Gerando a fome acelerada da moda em desuso vertiginoso Instigando a destruição pela alarvidade dos psicopatas   E a nudez perene a registar as rotas do desocultar dos mistérios A revelar os meandros das células a latejar O desvendamento do bater do coração As veias e artérias em comunicação a palpit...

O ritual da espera

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  Foto: Ana Maria Oliveira   A ventania provoca atrasos nas decisões dos mamíferos Que se espreguiçam exaustos de manipulações E agitações confusas amedrontadas Pela expectativa do desconhecido em revolta Perante crias abrindo as bocas histéricas Adivinhando a desenfreada guerrilha à solta   O fazedor de imagens apazigua as almas famintas O criador de enredos manipula cérebros doentes Autor de discursos pomposos silencia os diálogos Provocando cortes incisivos na inteligência dos crentes   A mente criadora de sentires resgata energias Palpações e enrolamentos de amantes fortuitos Sob a construção fictícia dos espelhos suspensos Detonam profusas indagações e experimentações Das tramas humanoides em desaparecimentos   O sujeito que percorre autómato e sem autoridade O labirinto de genealogias duvidosas e contingentes No encadeamento ininterrupto dos adultérios Mistura-se com a seiva contaminada dos convalescentes ...